vila itororó
os olhos se perdiam nos ângulos retos do teto, parede , escada - coração se envolvia no redondo da vida, que era
mancha, espalhava no muro, seguindo tijolinho por tijolinho, ora interrompia, ganhava forma, forma da cor do
desenho do grafitti, foi criança que pintou… oxalá pudesse fazer… – a luz do dia ia caindo, a da janela acendendo -
revelando alguém, textura cor e história – muita gente veio ver, gente de fora, gente do movimento, da arte, da
serenidade e da luta – era vila itororó – saiu no jornal, vc foi lá pra ver? – itororó toró pra crer, toró de quê? (…) o
coração palpita, confuso. dá uma alegria de ver, mas de ver o quê? – é luta. mais uma nesse mundo. lá vem o fetiche no
discurso, querem derrubar pra fazer um centro de cultura… um centro de cultura com letra maiúscula ou minúscula?
com letra maiúscula já tem aqui. cultura=história, gente fazendo, no cotidiano. gente enlaçando arte, atraindo
movimento. – querem derrubar. derrubar o quê? o concreto é o que interessa. querem derrubar história. querem
derrubar a dignidade. querem derrubar e passar por cima do tempo que o espaço guardou. do cotidiano que criou ali
uma valor invisível, da palavra tão rara, que a cidade que passa lá fora solapa sem sutileza, solapa, engole e maltrata,
faz quase esquecer, o valor dessa palavra tão rara que quase ninguém fala, mas que falta na veia: p-e-r-t-e-n-c-i-m-e-n-
t-o. – vão derrubar a cultura, a história pra criar… o que mesmo? salve a vila itororó. e salve logo, porque o concreto
dura, mas a vida é sensível e curta.
(da visita em 5 de setembro, na ocasião da reunião da comunidade e apresentação do oásis)
esta foto não fui eu que tirei, ela foi extraída do blogue da vila.
visite e entenda: www.vilaitororo.wordpress.com

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