NO MANGUE DO RIO CAPIBERIBE…

…a Ilha de Deus destaca-se pela contribuição de forma transformadora na sua dinâmica cotidiana, mesmo diante da ausência e da irresponsabilidade política, fomentadora das mazelas sociais e afirmadora das relações verticais, que persistem e subjugam a criatividade e a dignidade humana”*.

o pensamento cria a ponte; a ponte, o pensamento.
o pensamento cria a ponte; a ponte, o pensamento.

Foi uma pena não estar com o gravador naquele fim de tarde. De lá do outro lado da sala (porque estávamos numa grande roda) como é de costume, coloquei os óculos para ouvir melhor, faço isso quando tenho que ouvir e tiro quando vou falar… sinto que ouço melhor quando vejo bem e talvez por alguma timidez ou vaidade, prefiro não enxergar tão bem enquanto organizo minhas idéias. Mas lá pelas tantas do discurso do Edson – que era pra ser uma resposta a uma simples pergunta – percebi que nem de óculos precisava, que o que ele me trazia era coisa que a alma entende melhor do que os ouvidos, e nem precisa ver pra crer… Mas eu já estava vendo! Ou melhor, sentindo e foi fácil acreditar. Estávamos ali na salinha do Caranguejo Uça: Cris, Neu, Fátima, Edson Fly, Edileine, Marcos, Garotinho, Esmeraldo, o novo amigo israelense que me acompanhava- Gal um grupo de três voluntários italianos, Martina, Martina (sic) e Lorenzo. Cheguei ali através da Terezinha, colaboradora de peso do Carangueijo Uça; nos conhecemos no curso Comunicação, Gênero e Rádio, oferecido pelo Centro das Mulheres do Cabo (veja post em breve) no início de maio de 2009.


Cheguei ali despretensiosamente sem nem imaginar o que veria. Assim que entrei na sede do Caranguejo Uçá achei que tinha que trazê-lo pro Visões de Mundo, mesmo que, não estivesse planejando nenhuma reportagem pr´aqueles dias.

Fui recebida pelas meninas num fim de tarde de quarta feira, e até que chegasse o resto da turma, proseamos sobre os projetos de geração de renda que vêm acontecendo na comunidade. Fátima e Edileine, me mostraram artesanatos em conchinhas e contaram das atividades de complementação de renda que envolvem cerca de vinte mulheres da comunidade.


Tradicionalmente a principal atividade econômica da Ilha de Deus é a pesca. A ocupação da vila começou na década de 1950, por famílias de pescadores que vieram das mais diversas regiões de Pernambuco, especialmente para exercer a pesca como atividade econômica. Mais recentemente uma empresa de pesca chamada Netuno identificou os manguezais da Ilha de Deus como uma área propícia para a criação de camarões. Da pesca à produção de camarões, a paisagem em torno da ilha foi perdendo o mangue e dando espaço aos viveiros de camarões. O impacto ambiental consequente desta atividade praticada nessa escala é praticamente irreversível, uma vez que as árvores do mangue foram derrubadas e os sedimentos alagados. Economicamente, o estudo de Ferraz e Callou, aponta que os salários giram em torno de 100 a 400reais. A quase totalidade das pessoas envolvidas no cultivo de camarões são homens, o que provocou historicamente certa vulnerabilidade socioeconomica às mulheres da ilha. Os viveiros de camarão geram empregos para muitos moradores e também para gente de fora… Porém, com a chegada dessa nova economia, chega também um novo personagem na vida econômica da comunidade: o atravessador. Agora não é mais o pescador quem define o preço e pra onde vai o seu pescado, o atravessador media a relação com a empresa, acumula custos nessa negociação e diminui o faturamento do produtor…


É assim, Brasil afora, mundo adentro.


Não é à toa que a palavra que mais ouvi ali naquela quarta-feira foi resistência.


Resistência à quê?

“Resistência à inércia social que a história e as políticas públicas vêm condenando a sociedade, vitimizada pela consequência da globalização e modernização desordenada e exploratória.” Me ocorreu assim, na lata, inspirada na lembrança do teor do discurso do Fly. Nas palavras caranguejeras, o povo da Ilha de Deus não é “coitadinho”, é um povo que sabe seu valor e quer se autogestionar – e tem conseguido.

O Caranguejo Uça aparece em algumas reportagens como Associação, mas no Blogue gerido por eles mesmos, se apresenta como “Ação Comunitária”. Em sua quase uma década de existência nunca precisou ou pretendeu se institucionalizar… Resistência e criatividade, de existir pela ação. E pela comunidade. Muitos colaboradores têm vivido para o Caranguejo, mesmo sem ter conseguido viver exclusivamente do Caranguejo, mas ao que parece isso nunca foi algo que os fizesse desistir, ao contrário, o Caranguejo é movido a paixão, ideologia e fé, bem se vê.

Fly começou contando a história do Caranguejo assim “éramos vários viciados, marginalizados, gente com o pé no crime…”… com os olhos mais cheios de amor que de rancor, como um bom Guevarista que é. Isso porque a história transcorre e circula. Era quando a moçada se reunia pra fumar um ali no sótão que a carga da “marginalidade” ganhava sua expressão mais criativa: de se perceberem um grupo e não um bando; de se perceberem diferentes, mas iguais; de se perceberem capazes e não vitimas e, então, no meu poético entender, de perceber que a marginalidade poderia ser uma ilusão social e que haveria meios de se criar a sociedade que se sonha, afinal dela tod@s nós fazemos parte, enfim, que si, si puede. Dali do sótão, passaram a ser educadores da Escola Comunitária que ajudaram a construir ali na Ilha. Que agora está do outro lado do muro, a quem reconhecem o mérito do começo de tudo… mas preferem seguir atuando de sua maneira independente e envolvida.

Esmeraldo, que trabalha como vigilante numa empresa de segurança, me contou “eu, educador… imagina!”, e pelo jeito mandou bem, de fala mansa e atenciosa, presença carismática, discorre pela história e organização espacial e econômica da ilha como um professor de geografia, dos bons, seria capaz de fazer. Na Escola Comunitária ensinava o pessoal a fazer pão, divina profissão!

Na Ação Comunitária Caranguejo uçá, atualmente, além dos cursos de geração de renda – neste momento acontecendo uma formação em “guia turístico com responsabilidade ambiental”, promovida por uma ong italiana – ali já rolou curso de fotografia, música, arte… O evento “terças no mangue”, onde acontecem intercâmbios com as universidades, educação ambiental pra comunidade e orientação pros pescadores a respeito das maneiras mais sustentáveis de realizar a extração do caranguejo e outras práticas. A rádio poste Boca da Ilha funciona desde o início do Caranguejo, com seis caixas de som espalhadas nos postes da vila, ela informa, une e diverte os moradores da Ilha de Deus e os visitantes da vila Imbiribeira, ali do outro lado da Ponte Vitória das Mulheres (no começo, eram as mulheres que conseguiam tudo aqui! – contou Esmeraldo. A diversidade cultural das famílias de migrantes que colonizaram a ilha vem sendo revelada na reconstituição das festas, danças e ritmos, incentivada pela própria comunidade que gere a Ação Comunitária. Do coco ao maracatu e tanto mais que no sertão e em outros mares nosso povo brasileiro vem celebrando… muito se misturou e aportou ali, na foz do rio Capibaribe.

E é daí que a história faz o círculo – ou “arrodeia” como se diz nessas terras do norte – Ilha de Deus é um dos poucos lugares da periferia que vive seu cotidiano em paz. Me disse o povo de Recife que é comum em outras comunidades como essa, a moçada se reunir pra fumar crack nas esquinas com arma na cintura, que ninguém sai à noite e aquela coisa toda que a televisão gosta de mostrar pra gente. As duas vezes que estive na Ilha, sai de lá de noitinha. Fui caminhando até o metrô que fica depois do bairro da Imbiribeira, trocando gentis boas noites com os moradores e moradoras sentados nas cadeiras de praia na calçada ou circulando no mercadinho, na vendinha… Na segunda vez, ainda paramos pra tomar um sorvete e conhecer os amigos da Edileine. Dizem que nem sempre foi assim, que já teve quem chamasse a ilha de Ilha Sem Deus, mas tem sido com muito trabalho que Deus voltou a cuidar dessas margens…

A Ilha, assim como a comunidade de Imbiribeira e como boa parte de Recife e Olinda e provavelmente outros lugares desse Brasil, sofre de um mal que é realmente inconcebível num século vinte e um, depois de tantas ecos 92, rio+10, fóruns sociais mundiais, e tantos e tantos avanços nas discussões de saúde e meio ambiente… Ali o esgoto circula onde circulam as crianças, onde circulamos todos nós, no ir e vir do todo dia. O esgoto passando na rua, na beira da calçada, quando há calçada. Na Ilha de Deus a situação é ainda mais grave, porque a vila está sobre um aterro de mangue. O assoalho do mangue, por sua fragilidade e pelos seus componentes é considerado um sedimento, ou seja um material formado por matéria orgânica, não chegando ainda na condição de solo. É um material alagadiço por natureza. A água vem de baixo pra cima e a que vem de cima pra baixo, penetra, mas muitas vezes não drena. Então o esgoto fica ali, se espalhando pela via, misturando-se à lama que bem ou mal leva-se pra casa todos os dias. Algumas casas, de acordo com os relatos, possuem fossa séptica, mas isso ainda não é um programa do Estado. Esse esgoto que vai pro rio, facilmente contamina a pesca, e nos arredores da ilha ainda se vê o lixo envolvendo as palafitas, as demarcações dos viveiros de camarão, as cordas das embarcações. O lixo é um problema mundial. Já não nos vale dizer que é apenas um problema de educação. É também. Mas não só da educação ambiental que se faz num projeto social. Ele vai além. Ele começa no consumo, passa pela necessidade de campanhas massivas, e se encerra (não sei se se encerra…) na criação de políticas públicas adequadas de destinação dos resíduos. A foz de um rio é um lugar estratégico para entender esse drama.


A Ação Comunitária Caranguejo Uça com tão pouco tempo de existência envolveu a comunidade e certamente contribuiu para o que muitas vezes parece ser o mais difícil de se transformar: o subjetivo, a consciência, não só no sentido de trazer responsabilidade pro dia a dia, mas da consciência no sentido da expressão da alma mesmo, de poder superar a preocupação imediata com a  sobrevivência, das mazelas humanas (que nos afligem a tod@s), e trazer pro cotidiano a arte, o conhecimento, o senso de comunidade, a comunhão com o vizinho, a ampliação da família, o direito de sonhar, de criar, de se informar, de criar e de ser notícia, de produzir boas notícias…


Edson Fly diz lá no blogue: “O Caranguejo é sem dúvidas resultado da ausência de iniciativas políticas, mas que não nos levaram à marginalidade. Essa forma de manifestação podia ser com armas, mas as famílias daqui escolheram a arte, do teatro, da música, da costura, da própria arte de tear as redes de pesca”.


foto aérea da ilha de deus

foto aérea da ilha de deus


*epígrafe retirada do blogue www.caranguejouca-ilhadedeus.blogspot


Algumas leituras:

* O estudo de João Henrique de Melo Ferraz e Angelo Brás Fernandes Callou está no site:

http://www.alaic.net/alaic30/ponencias/cartas/Tecnologia/ponencias/GT18_12%20de%20Mello%20y%20Bras.pdf

*Ananda de Melo Martins, Cláudio J. M. de Castilho, Hernande Pereira da Silva:

http://www.abep.nepo.unicamp.br/encontro2006/docspdf/ABEP2006_296.pdf


O Blogue do Caranguejo Uça:

* http://www.caranguejouca-ilhadedeus.blogspot.com/

~ por visoes_de_mundo em Junho 4, 2009.

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