AGROECOLOGIZANDO O PENSAMENTO*
Esses dias descobri, comecei a aprender sobre generosidade e abundância quando fui trabalhar com os agricultores sem terra no oeste do Paraná. A palavra generosidade começou a fazer parte do meu dicionário quando presenciei a distribuição e trocas de sementes e mudas entre agricultores orgânicos. Isso não era pouco. O ato de dar uma muda ou semente significa garantir que essa espécie continue existindo e se proliferando. Receber algo em troca é assumir essa mesma responsabilidade.
Em oficinas de agroecologia com o amigo Mago Jardineiro, pude entender a verdadeira magia que ele realizava: sementes surgiam e nunca acabavam de surgir, alegrando os oficinandos que sabiam que dali enriqueceriam seus jardins com novas espécies de alimentos, remédios, ornamentos para os insetos e outros animais. Pude entender o que é abundância na Natureza entrando em terrenos baldios e vendo brotar alimento, caminhando na estrada e numa cerca viva já meio abandonada encontrar mudas que embelezariam jardins e produziriam outras cercas vivas em outros lugares; tirá-las dali era um favor que fazíamos ou, no mínimo uma ação de baixíssimo impacto para o lugar, que rebrotaria a tempo de alguém precisar deles e de grande utilidade para a terra que receberia aquela muda ou semente.
Também no trabalho isso se realiza. Lembro-me da minha hesitação em pedir ajuda aos amigos para dar conta do quintal da casa onde eu morava – que era também a casa onde funcionava nosso escritório – e que precisava de poda, de plantio, de manejo. E eu não sabia muito bem por onde começar. Ou até sabia; tive um sonho de que o abacateiro deveria ser podado para entrar luz no quintal. E foi assim, contei o sonho ao amigo Neto, técnico em agroecologia e assentado do MST e, com seu jeito fazedor, não teve dúvida em tirar um domingo de sol pra podar o “meu” abacateiro. A partir daí o quintal que era o lugar de sentar pra conversar no fim da tarde, passou a ser um lugar coletivo, e em pouco tempo, com a chegada de novos amigos, foi recebendo novas técnicas de manejo e passou a produzir muito pras nossas saladas e frutinhas que refrescavam o quente verão de Queda do Iguaçu. Além de fornecer mudas para outros jardins. Esse foi meu primeiro laboratório, onde tive chance de me sentir à vontade para contemplar e despertar os sentidos para as relações que ali se criavam, tarefa essa que gostava de fazer sozinha, talvez porque fosse o momento de me despedir das minhas próprias ignorâncias e me deleitar no encantamento, umas das poucas coisas que continuaram sendo “minhas”, mas absolutamente passíveis de compartilhar, graças a deus.
No campo, a expressão “ajuda mútua” pode soar acadêmico demais. Mas sem precisar de muito argumento, ela brota no cotidiano, por puro costume… lógica ou caráter? A universidade está cheia de teses e capítulos de teses a discutir esse assunto. E nós, nessa pós modernidade com cara de fim de mundo, nos voltamos a essas práticas para aprender como sermos mais humanos. A naturalidade em relação ao trabalho coletivo também salta aos olhos dos forasteiros, mas ele é uma ferramenta óbvia para garantir que as coisas aconteçam – aí está a lógica!
Na realidade do Movimento Sem Terra, mesmo que muitas das pessoas que estão acampadas ali tenham a memória do trabalho coletivo em suas origens, ele não aconteceria na escala que acontece, se não fosse uma rígida cobrança de todo o sistema organizativo do movimento social. Há de se lembrar que o movimento social não é uma entidade política que surge da abstração da cabeça de algumas pessoas. Ele é resultado principalmente de uma realidade que confronta-se com a escassez de recursos, de direitos, de assistência e encontra no coletivo, a abundância, libertadora. Provavelmente mais libertadora do que o próprio acesso à terra, mas essa é uma tese que eu gostaria de mais tempo de vida e vivência para defender.
Assim, na organização cada um exerce uma função na rotina do acampamento que se torna daí uma comunidade. Desde o atendimento na farmácia da terra até a construção dos barracos, da cozinha coletiva que faz o sopão para as crianças à coleta de alimentos na cidade para o mesmo sopão. E de situações pontuais, como um evento para discutir o futuro do assentamento ou de formação de educadores, agentes de saúde ou o que seja, que acaba por mobilizar a todos na divisão de tarefas para que o evento aconteça. E ninguém pergunta o por quê ou por quanto. Pode surgir um “por que não?” Porque, de fato, dar seu tempo ao coletivo é sim um ato de generosidade, mas também é um ato de existência, uma maneira de participar, sentir-se parte ou ser parte. E assim a vida se realiza.
Importante dizer que comunidade não significa harmonia, e menos ainda homogeneidade. Comunidade é algo mais próximo de comunhão, no sentido figurado e não religioso, que significa participar e compartilhar de certas crenças ou ideais. E cada tipo de comunidade comunga alguma coisa mais do que outra. Os acampados do Movimento Sem Terra comungam a luta pela sobrevivência, primeiro. E nela está inserida a luta pela terra e a realização da cidadania que implica no acesso aos seus direitos e à formação enquanto cidadãos também – coisas que nós, seres urbanos andamos esquecendo de reivindicar.
Se alguém ainda acredita que a revolução vai se dar através da luta de classes e da tomada de poder pelo proletariado, peço amorosidade em aceitar minha opinião de que o caminho é outro. Embora o movimento social tenha se desenvolvido sob essa crença, a verdadeira transformação tem se dado no âmbito da subjetividade. Ou seja, na transformação das relações sociais entre aqueles que participam do movimento social. E, ainda, nas transformações espaciais que o movimento tem sido capaz de promover no território brasileiro. Com consentimento do Estado e sem dúvida, sem deixar de ser a classe trabalhadora submetida a esse Estado, mas, contudo, porém, ganhando poder de protagonista dentro do cotidiano, na medida em que se apodera de suas escolhas, na medida em que garante o suprimento das necessidades básicas de sua família através do trabalho.
E, por uma experiência curta, mas que considero profunda, posso defender que o empoderamento do agricultor está muito intimamente ligado às relações que ele estabelece dentro da comunidade. Aqueles/as que se organizam em associações e através delas potencializam o seus papéis de produtores/as, estão mais seguros diante de instabilidades econômicas, porque no coletivo pode-se ter mais acesso às informações e, assim ter mais condições de tomar decisões; pode-se ter mais acesso a créditos para viabilizar o desenvolvimento da comunidade. Têm-se mais consciência do coletivo e aí os valores éticos de convivência passam a ser premissas de sobrevivência. Quando há ausência de ética, se o grupo é mais forte, o agricultor fracassa; se o grupo é fraco, o poder, a coerção tomam conta das relações e, em pouco tempo o grupo também ruirá.
A agroecologia tem um papel fundamental nessa relação. Ao optar por um cultivo livre de agrotóxicos, o agricultor está assinando um termo de emancipação em relação ao círculo vicioso de compra de sementes, compra de insumos e inércia na venda de seu produto.
Embora muitos agricultores agroecológicos consigam se desenvolver somente com a força de trabalho familiar, esse caminho pode ser mais difícil nos dias de hoje, principalmente porque há muitos desafios a se enfrentar para desenvolver-se fora do círculo vicioso da agricultura convencional. Não vou usar o termo nadar contra a corrente, porque tão ultrapassada quando a idéia de que negros no Brasil são uma minoria étnica é a de que a agroecologia é uma prática de resistência, exercida por poucos. Esse novo paradigma pode nos encher de esperança e eu fielmente acredito nele. O que acontece é que primeiro, a agroecologia ainda é tratada como exceção; na mídia ela aparece mais nos programas de ecologia do que de agricultura, mas quando aparece é curioso de notar que é apresentada quase como uma obra autoral, dando destaque sempre à personalidade do agricultor, a origem do conhecimento, enquanto as matérias sobre agricultura convencional são totalizantes e impessoais, falam de produtos, safras, números… E é porque é assim mesmo, o agricultor agroecológico está próximo da terra, da produção, e o ideal é que tenha poder sobre todo o ciclo de seu produto, enquanto que o agricultor convencional, muitas vezes é o grande fazendeiro, administrador, distante dos processos, mais próximo dos resultados, e virá a público para apresentar orgulhosamente seus números alcançados, enquanto que o trabalhador que está aplicando veneno dificilmente terá condições de orgulhar-se da atividade que adoece tanto seu corpo quando o meio em que vive e trabalha.
E aí está o segundo problema para conseguirmos a visibilidade em relação à agroecologia: enquanto ela estiver espalhada no mapa, ela criará lacunas de enfraquecimento tanto da produção quando de seu verdadeiro sentido. Uma produção livre de venenos cercada por produtores convencionais será prejudicada tanto economicamente quanto ambientalmente.
Por isso, a solidariedade passa a ser um dos fatores éticos do agricultor agroecológico; ele deve incentivar seus vizinhos à conversão e unir-se a eles em associações para garantir soberania territorial da prática da agroecologia em alguma escala. Unindo-se é mais fácil também criar barreiras ecológicas para que o veneno não atinja suas produções, o que pode acontecer tanto através dos ventos de maneira física, ou do transporte de sementes e pólens através de pássaros e abelhas ou ainda através da dispersão de um gene transgênico desenvolvido em laboratório para disseminar espécies agricultáveis e também de florestas nativas.
A verdadeira revolução nesses tempos virá através da mudança das relações sociais em toda as escalas, mas principalmente na escala do cotidiano. É aí que os indivíduos terão condições de ter acesso às informações necessárias para direcionar suas práticas de maneira a emancipar-se, não mais do Estado somente_ com a ampliação da consciência humana. Este, o Estado, será mais coagido a atender seus cidadãos e a servi-los, mais do que simplesmente condicionar seu desenvolvimento. E a verdadeira emancipação virá dos limites humanos, mas pra isso, a vida tem que encontrar espaço para realizar-se. Não mais será possível pensar numa vida isolada, e a agroecologia vem-nos ensinar isso. O trabalho exige soma de talentos – plantar, vender, administrar, buscar novas informações, aprender com a natureza, participar politicamente – e dedicação constante. A diversidade de idades, sabedorias e interesses, o ritmo de cada um, tudo isso cria uma realidade própria, voltada para o desenvolvimento comunitário, tendo a agroecologia como um serviço para toda a humanidade.
Através dela vencemos o paradigma do homem (sic) querendo vencer e dominar a natureza. Temos aí, o trabalho cooperativo, entre seres humanos e para com a Natureza. Preservando,cultivando, fornecendo saúde. Emanando a sabedoria de quem Nela vive e A observa. É mais do que sábio perdermos o medo do que parece ser uma visão romântica da vida e das relações. É preciso desaprender a reproduzir a lógica do mercado em nossas argumentações. De que nos interessam tantos números?! Muito mais nos vale, enquanto “raça humana”, que a terra produza alimentos, que as pessoas se alimentem e que tenhamos saúde. Isso é simples. A Agroecologia é a semente. E a semente guarda uma mata inteira, como diz o poeta**.
Legenda das 3 últimas Fotos:
Todas as fotos foram tiradas durante a realização do Projeto Fruta no Pé, Sombra e Água Fresca, no Assentamento Celso Furtado (MST/PR), Quedas do Iguaçu – PR
WWF-Br e Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST. Coord. Helena Ma. Maltez.
1) Distribuição de sementes pelo Ademar Mago Jardineiro, 2006.
2) Distribuição de sementes a
tividade, coord. Agr. Lisandro Rauni Inakake de Souza, 2006.
3) Atividade de Jogos Cooperativos, facilitação educomunicadora Amanda Barral, 2005.
* Mago Jardineiro que tb é poeta chama seu trabalho de Jardinagem do Planeta e do Pensamento… Esse texto transmite o que entendo por Jardinagem do Pensamento…
** Franklin da Silva , músico e compositor, Recife, PE

Legal. De fato, conheço o trabalho do Mago. Participei de várias oficinas.
Precisamos construir e fortalecer essa relação social e com a natureza.
A prática e esta nova linguagem consolidará nossa utopia.
Luiz Antonio Sypriano disse isso em Julho 6, 2009 às 1:50 am |
Siga firme Caro e Belo Amigo Jardineiro do Planeta e do Pensamento.
Quando o sr apareçe por aqui no nosso quintAo em Piraquara? O Jardim tá crescendo e os brotos se unindo na agrofloresta da Ombrófila Mista aqui do Bosque com duas “Avuelas”(Arauc[aria Augustifolia) de 250 anos cada uma. Coinspirando
André Carneiro disse isso em Julho 9, 2009 às 5:08 pm |
comungo das mesmas paixões.
Nas relações de respeito, carinho e troca de saberes, encntro a necessária PAZ e calor para fortalecer nossas utopias, num tempo
que beira o caos coletivo. LUZ a todos
claudinha
claudia lulkin disse isso em Julho 9, 2009 às 10:48 pm |