Parto de Lótus
Era verão, janeiro de 2009, aqueles dias que não tem quase ninguém em São Paulo, mas quem está se encontra.Cheguei em casa em horário já muito próximo da meia noite_ no horário dos home, não no horário de deus; como bem disse um pescador de Cananéia anos atrás. Já havia conversado com três pessoas na net quando a chuva caiu em tempestade. Fiquei onde estava. Busquei no pensamento se havia algo que deveria fazer por causa da chuva… o tonel de captação de água estava cheio, não lembrei de goteiras, janelas fechadas… talvez velas se acabasse a luz… um grito de gato no quintal e… puxa, a Lótus estava gravidíssima e hoje mesmo pensamos que ela poderia estar por dar a luz. Por um segundo tive vontade de chorar por estar sozinha… o que eu vou fazer??? Já era hora depois da meia noite, no horário de uma cidade dormindo ou ocupada com alguma coisa interessante. Vamos lá, abri a porta do quintal e as duas filhotinhas que me acompanhavam amorosamente nos últimos dias entraram felizes. Fui à busca da mãe. Na penumbra molhada subi até o galpão biosconstruído da Morada. Dentre tantas tomadas uma acenderia a luz. Lótus?! Lótus?! Ela estava no pior lugar, uma viga de madeira que unia os dois mezaninos na qual eu já declarara que não tinha a menor habilidade para subir. Em minutos amaldiçoei minha mania de desistir das aulas de dança, kung fu… Mas recorri a outra estratégia. Chamei-a com convicção e expliquei pra ela que ali não era o melhor lugar para parir. Os vizinhos que me desculpassem por tamanha insanidade a essas horas, mas era sincero, ela tinha que entender. Lótus, vamos pra dentro de casa. Vi que ela não ia descer enquanto as filhotinhas e o filhotão – havia um rapaz na parada – continuassem a olhá-la. E desci de volta pra dentro de casa chamando as pequenas, minhas companheiras fiéis que me seguiram saltitantes. Feli e Morgana são as pequenas filhotes da Lótus, ainda em dúvida do nome desta última que de Fadinha passou à Morgana e hoje mesmo ainda me tentou chamá-la de Alegria, mas inevitavelmente iriam me perguntar, porque uma é Felicidade e a outra Alegria e certamente iriam buscar algum motivo filosófico pra isso, mas não seria nada além da possibilidade de chamar uma de Feli e a outra de Alê, sendo que as duas me faziam feliz, alegre, sei lá…. enfim, ela continua sendo a SaFadinha sem nome ou com vários… Desde que vim morar na casa passo horas observando as duas brincarem dinamicamente. Elas se mordem, rolam juntas no chão, se escondem uma da outra, enganam uma à outra… Nos últimos dias que tenho ficado bastante sozinha, elas têm se mostrado duas deliciosas companheiras se enroscando nos meus pés, me chamando pra brincar, me mordendo como mordem uma à outra, pedindo carinho com o corpo inteiro, cada uma do seu jeitinho, a Feli mais meiga, quietinha, aprendendo a miar e a Fadinha safadinha, tagarela,dando cambalhotas, miando, me dando umas patadinhas pra eu chegar mais perto!
Depois que chegamos no quintal, Lótus resolveu descer com sua enorme barriga e pararam todos na porta a olhá-la. Para trazê-los pra dentro coloquei o prato de comida na cozinha. Fechei a porta. Tive que expulsar uma barata que a pequena Feli trazia na boca e dar uma bronca pouco pacífica nela que logo entendeu ou ao menos se encolheu num cantinho da parede e desistiu de brincar. Ficamos nós cinco dentro da casa, eu, Feli, FadinhaMorganinhaAlegria, Cosminho e a mãe de todos, Lótus. Voltei pro meu trabalho enquanto a Lótus espantava a todos de perto do prato de comida. As pequenas dividiam o tempo em brincar e a olhar a mãe com temor, a ponto de se arrepiarem de medo quando ela chegava perto. Quando a gata prenha veio pra sala as duas pequenas se esonderam embaixo das minhas pernas. Incrível como eu poderia ser mais inofensiva do que um ser da mesma espécie que, por sinal era mãe delas! A grávida magestosa atravessou a sala e deitou no sofá sem tirar os olhos do único macho presente. Lembrei da Dani, uma amiga contando do momento do parto natural que fez em casa, que “virara bicho”, que não queria ninguém por perto, especialmente homens, e que até o companheiro dela teve dificuldade de se aproximar. Achei melhor por o rapaz pra fora. Na chuva mesmo, ele ia se virar. Era um momento de mulheres. Voltei e sentei ao lado da Lótus, que, por sinal estava ao lado do meu local de trabalho. Continuei digitando. O que aconteceu daí pra frente foi muito inusitado e vai parecer loucura mesmo. Eu nunca tinha tido contato direto com essa gata até hoje à tarde quando tentei colocar a mão na barriga dela na presença de um amigo e ela rosnou pra mim deixando claro que não era pra eu me meter na história. Sem que eu fizesse absolutamente nada, nessa noite ela subiu no meu colo e ficou de pé, apoiada nas minhas pernas que estavam cruzadas – em lótus, por sinal. Acariciei a cabeça dela, o pescoço e começamos a nos comunicar. Ela me olhou nos olhos daquele jeito que os gatos sabem fazer, e eu lhe disse com firmeza – realmente não tive controle de onde saíram essas palavras – “estou com você, vai dar tudo certo”. E pus a mão na barriga dela, que consentiu se aconchegando mais no meu colo. Trocamos algumas impressões e ela se deitou ao meu lado de novo. Em menos de um segundo começou a rosnar para as filhotes e percebi que queria mais privacidade. Me senti uma parteira nata. Uma doula, não sei; mas percebi que fui aceita. Desde que minha amiga Tatu resolveu fazer um parto natural no nascimento da Nina, o assunto começou a me envolver animicamente. De lá pra cá praticamente todas minhas amigas engravidaram ou eu me tornei amiga de muitas mulheres lindas, queridas grávidas ou com filhos. Graças ao bom deus, a maioria delas envolvida com parto natural e humanizado. Hoje mesmo havia passado a tarde com minha irmã que está grávida de cinco meses do Thom… uma das maiores alegrias que já tive na vida foi receber a notícia desta gravidez. É incrível, é inexplicável o que isso significa na vida de uma pessoa. Pouco antes da Tatu, vivi uma epidemia de amigos homens vivendo as transformações da paternidade. E pude acompanhar bastante de perto as transformações e aprendizados de uma grande amiga, cuja primeira filhota já está na quarta série do ensino básico. É um tema intenso. É como se viesse à tona toda a razão de existir nesse mundo. Todo o instinto de doação e entrega rompe as carapaças da alma e o amor parece costurar todos os amálgamas mal emendados. Ao mesmo tempo que as sombrancelhas ganham outro peso – principalmente a dos homens que não têm – será? – os hormônios transformados para que o entendimento acompanhe a vida que chega; e que chega chorando pq leva tapinhas na bunda, senão chegaria rindo desses adultos bonachões que ficam criando tanta caraminhola para desenvolver formas de simplesmente estar ali e corresponder aos princípios básicos da vida, amor,comida, cuidado. A aprender a ser humano.
Somos tão bobos achando que não estamos prontos. A vida não está pronta. A vida não está pronta pra nada, esta é a verdade. Aninha, mãe da Clara Lua, dizia que não tem essa de estar pronto pro filho, o filho também não está pronto pra você. E acho que é isso mesmo ou o contrário; a vida se faz quando a gente se joga ou alguém nos joga pela janela… se vira. Conheci uma guria na Argentina que estava lá para desanuviar a cabeça, descansar do trabalho intenso que fazia com pessoas com problemas mentais na Suiça. Na primeira semana no país saiu pra viajar para o norte e conheceu um argentino no ônibus. Se encantaram e começaram a se encontrar. Muito pouco tempo depois ela engravidou. Ela em Buenos Aires e ele em Catamarca, ela analisou racionalmente a situação e decidiu fazer um aborto. Parecia inviável ter uma criança agora, não sabiam em que país iam viver, ele não falava francês, ela não podia ficar na Argentina… Ele tinha um bom trabalho, era consultor autônomo e não teriam como estruturar uma vida na Suiça. Várias questões. Então ela viajou para o norte para encontrá-lo, para que lhe desse suporte para a recuperação emocional depois do aborto. Ela foi com o comprimido na bolsa. Foi a última vez que nos vimos, porque eu voltaria ao Brasil antes de que ela voltasse a Buenos Aires. Senti muito. Éramos seis mulheres na casa, somente duas de nós sabiamos da gravidez, eu e a dona da casa, que precisava saberporque nossa amiga ia deixar a casa. Alguns dias depois, recebemos uma mensagem no celular, eles haviam decidido ter a criança. Foi um alívio para nós. Depois não soube de mais nada. Um dia mandei um email e ela me respondeu rapidamente, dizendo que estava na Suiça, saindo de férias e na volta me contaria tudo. Achei que ela tinha mudado de idéia ao voltar a seu país e não ia ter a criança. Anteontem recebi um email seu. Muito sintética, me contou que seu filho tinha nascido na noite do dia 30 de dezembro, na banheira da sua casa, alguns minutos antes da parteira chegar. Assim que, em suas palavras, seu companheiro foi quem fez o parto. Foi uma história linda. A vida tem sua força. Quando quer, ela acontece. Não depende da nossa limitada consciência ou tendencioso desejo. Ela vem.
Paulinha, a moradora-anfitriã da Morada, fez seu parto com uma garota incrível, que,com 24 anos já fez dezenas de partos por todo o mundo. Cursou uma escola de parteiras, morou com um xamã…Uma mulher linda. Quando a vi na foto tive a impressão de já tê-la visto, mas era impossível. Soube dos detalhes do parto, fizeram um documentário e era como um sonho; perfeito. Um momento de paz, de receptividade e conexão com o que estava por vir. Não era pouco, era uma vida. Muita água,um parto na banheira, água nos olhos meus. Quando Paula olhou nos olhos da Violeta, foi visível a surpresa do encontro. Eram dois seres que estavam se conhecendo. Re-conhecendo? O pai, sensível que é, foi fundamental. E acredito, por ter participado tão ativamente do parto, pôde também transformar-se em pai, de verdade, instintivamente.
Achei que eu ia ser a doula da Lótus. E lá fui eu. Coloquei as filhotinhas pra fora como fiz com Cosminho. Confio nos bichos, sempre acho que eles sabem se virar, principalmente gatos. Adoro observá-los e aprendo um monte. A mãe pareceu me agradecer. Ela tinha os olhos mais tranquilos. Estava no seu posto, ao lado do meu. Acho que entendeu que eu ficaria ali a noite inteira. Com um frio na barriga, mas estava lá. Coloquei um kiirtan. BABA NAM KEVALAM, TUDO É AMOR, TUDO É CONSCIÊNCIA SUPREMA, esse mantra é muito poderoso. Uma vez pude trazer um siri até minha mão cantando esse mantra. Tenho medo de contar isso aqui e parecer uma metida à xamã, mas é tudo verdade. E nos últimos tempos essa conexão com bebês e bichos têm feito meu coração sorrir bastante. Não estou preocupada em ter filhos nem ando pensando em tê-los tão já. É outra coisa. É a sensação de estar desafiando um mistério. O mistério da vida, do que não se comunica de maneira óbvia ou conhecida. De um mundo sutil que desaprendemos a perceber. Foram alguns segundos pra Lótus relaxar e deitar a cabeça no sofá. Pude colocar a mão na barriga dela e ela respondeu ao carinho se aconchegando. Senti os filhotes se mexerem. Meu palpite é que são três porque a barriga está imensa. Mas nunca tinha reparado tanto em uma gata grávida (por que tem que falar prenha?) então não tenho muita idéia. Ficamos ali um tempão. Ela descansando, atenta, vez por outra o rabo manifestava, mas muito raramente. Estava realmente aceitando minha mão esquerda em sua barriga. Com a direita eu continuei postando fotos na internet… mas permaneci atenta. Quando já passava das três, no horário dos gatos e da internauta, resolvi tomar um banho quente como gosto de fazer pra esquentar o corpo à noite. Ela estava bem, tranquila. Apaguei as luzes e deixei-a com o mantra. Quando volto, encontro Lótus e sua imensa barriga (é inevitável fazer essa observação, pq ela está realmente imensa!) saindo do meu quarto, olhou pra mim e deu um miado como quem me procurava, me dando uma bronca. Respondi à altura. Deixei minhas coisas e a chamei de volta pra sala. Ela foi até a porta da casa e miou de novo… entendi que não ia ser hoje minha noite de parteira e deixei a guria cair na noite, torcendo pra que não se enfiasse num canto e resolvesse parir. Mas acho que não. De todo modo, continuo acordada. Um pouco decepcionada, esperando outro miado, ouvindo The Doors.

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