Enlaçadores de mundo
esse era um email que ía pra algumas pessoas queridas, não eram poucas… mas não mandei. Porque achei que ninguém ía se animar de ler até o fim. Tá aqui, então. Eternizado pras noites de curiosidade ou insônia.
Tenho um amigo poeta que diz “esse email é coletivo, mas sei bem quem está no molho”. É assim. Tb sei bem pra quem estou mandando esse email. Perdoem-me por mandar em aberto, mas é pra ficar com cara de reunião lá em casa, daquelas de se jogar no chão da sala e conhecer gente nova. Adoro reunir amigos que nunca se encontraram antes no caminho da vida!
Tem gente do molho que nem sabe, mas sigo na Argentina. Tem gente que nem sabe que vim. Porque a vida é muito louca, os amigos se espalham pelo mundo, a geografia afetiva se amplia e o tempo maquiniza. Aí não dá tempo de contar novidade.
Nessa idade, que já não tem mais boteco de esquina pra cabular aula, o ponto de encontro é virtual, msn, orkut, facebook, qq meleca dessas… e o castelhano tem uma ótima expressão pra isso: é “aburrido”. Delícia é encontrar uma palavra que venha na direção, qq coisinha, coisona, notícia, poema, pedido de ajuda, lembrança de qq teor… tão bem vindos quando a gente tá longe, muito longe, mesmo que seja longe de onde a beleza do mundo se esconde* … mesmo que se esteja em busca de novas referências, as antigas, amorosas – amorosinhas, amorosonas, tanto faz…, enfeitam o dia! Aburrido, muito chato, é abrir email e só ver FW… gente insensível!
Mas, sim, estou na Argentina desde outubro de 2007. Fiz 29 anos aqui. Dizem que meu mapa astral mudou por causa disso. E sinto saudades. De cada um que recebe esse email. Assim que, algum pedacinho de vcs anda vibrando nessas terras.
A caminhada vem larga. E lenta. Cada trinta dias me rende 5 nos objetivos internos. E 25 de novidades discretas as quais venho me acostumando a receber. Entre luas e conflitos, festas e sorrisos, gente nova, poucos Amigos… a vida vai realizando o sonho de conhecer o “outro”, o outro geográfico dessa vez. Por quê? Não sei. A resposta vem a prazo. A infinitude de informações diárias enriquecem a vida. Falar outra língua ajuda pra dizer um monte de coisas, fingir personagem! Maior barato.. quanto tempo não ouço isso! Dia desses soltei um “desencana” e lembrei quem eu era!! Castelhano é o m-a-i-o-r b-a-r-a-t-o. Desafio empírico, uníssono, vou aprendendo é na “calle” mesmo, saindo com sotaque portenho, aquele que paulista não gosta muito de ouvir, principalmente quando vem com camisa do river plate. Do Boca já aprendi a gostar. Porque ali, a paisagem é incrivelmente linda. Turista bobo se limita a ver Caminito. Uma mirada más para allá, e está: o porto cheio de barcos antigos, velhos, enormes, pequenos… qualquer viajante ama um porto. A mim provoca qualquer coisa no peito, assim de fazer coceguinha. E os óio si enche d´água**… As casas antigas da Boca… são casas antigas da Boca!! Argentino quer ser hermano com turista e diz “cuidado ao caminhar na Boca”… Mas não há encantamento que se limite em derramar os olhos na antigüidez das casas, do jeito de viver, na marginalização da gente, que quase vira paisagem não fosse o coração que alerta os olhos da viajante. Tem uma riqueza nas vista (sic) da qual padece a vida. Cotidiano. Esse tal, que a gente não sabe se domina, investiga, se entrega ou resigna (com assento no “g mudo” pra ter rima).
É assim.
Essa semana teve nome de Saudade. Saudades de movimentar o peito de leve, molhar os olhos de água doce… Vontade de alma conhecida. Trocar. Ou só sentir. Estar ali, sob o mesmo céu. Poder tocar a campainha da casa, bater na porta da sala, escritório, discar pra falar, encontrar por acaso… Coisas assim que ajudam a gente a se sentir mais vivo, presente. Saber da vida, contar as novas. Ou nada. Um sorriso à toa.
Por isso voam essas linhas. Até aí.
Buenos Aires é lugar raro nessa Terra. Nunca pensei nem em visitar. Mas pisei e me enrosquei. Cultura a dar com pau. Cada esquina um espaço de teatro, comunidades dançantes, amigos pintores… qualquer adolescente bate um papo bom sobre a “sociedade vigente”. Aí crescem os olhos de vontade de fazer também… E a vida vai.
Aqui, o Poeta do Brasil descobriu o que era preciso pra Viver Um Grande Amor… Tangueiro que só, terra onde drama aflora! Nostalgia avança…
E a mim, que principio em todas as artes, me basta mandar-lhes palavras e palavras… pra expressar o colorido da saudade dançante, de dança espontânea, uma assim, que costumo fazer no terraço da casa portenha.
Assim está a vida: moro com mais cinco mulheres. Suiça, colombiana, argentina, argentina, argentina e eu, brasileirinha. Gente de pedigree: psicopedagoga, comunicadora social, bailarina, estudante de letras… e eu, que aqui, me consideram a“hippie”… eu!… ou quando protesto, corrigem: “alternativa?!” (…). A convivência é pra lá de boa. Ontem estreiamos caipirinha. Com vinho argentino. Coisa rara. Mas a noite permite. A casa enorme, como imensa maioria dos apartamentos de inspiração européia que predominam na cidade colônia, tem terraço e quintal. Uma grande delícia para as noites de lua e brisa do outono que chega. É uma casa meio apartamento, um conceito (!!) que não existe no Brasil (ao menos não no meu brasil classe média), um solar. Sim, porque sabem, Buenos Aires é a Paris da América Latina (!!). Nesse solar viveu um escritor polaco que se chamaWiltold Gombrowicz. Sim, um cara que, na relação Argentina-Polônia deve ser muito importante e agradeço ao Dr. Eugeniwsz Noworyta, senhor Embaxador da Polônia em 1999, que colocou uma placa em sua homenagem na porta da casa, transformando nosso lar em atrativo turístico. Um dia, alguém vai passar aqui e dizer “aqui viveu Amanda Barral”. Um de meus amigos em visita à Argentina, claro! Não esqueçam de me pedir o endereço!
Estamos em San Telmo. Um bairro que mistura Bexiga, Vila Madalena e Santa Tereza. Desse naipe. Uma delícia. E também muito sujo, barulhento… essa mistura de encantamento e horror que a metrópole nos causa; tá tudo aqui na esquina.
E, sim, é verdade, os vizinhos saem com os nenês para passear depois da meia noite, quando as ruas estão tranquilas, apesar dos “boliches” dançantes.
Tango é de se ver nas Milongas. Evento tipo gafieira carioca.
Os bacanas vão nas Peñas – encontro folclórico. Que são obviamente, bacanérrimas.
A vida aqui, agora se sustenta através de massagens. E sigo desenvolvendo essa prática com “mucho gusto”, mesclando as técnicas do Xico, com Ayurveda, reflexologia chinesa, amor e intuição. Jeito bom de se comunicar. Nas outras horas, escrever e fotografar por esporte; nadar por sobrevivência; oficinas de teatro e clown pra se divertir; algumas outras pra experimentar. No fim de semana vou me expandir nas práticas de permacultura dos grupos independentes ainda bem tímidos, mas que já produziram hortas orgânicas em ocupações inusitadas; E, além do delicioso fazer nada de domingo, tem também meditação com a samga.
É assim. A vida vai.
Desconstruindo e construindo todo tempo, todo o tempo. No suspiro, a lembrança dos rostinhos que aqui se representam no entre @rroubas. E rasgando a saudade.
Notícias vêm rarefeitas. Porque a vida segue louca. Quem sabe alguém se anima a dar aquele “olá, como vai?! Eu vou indo e vc…? – eu vou bem”…
Alegraria meu dia.
Não posso deixar de comentar, que me surpreende as notícias de tombos de pessoas conhecidas, queridas e amadas que andam caindo por aí. Nenhuma delas foi engraçada e algumas me chatearam muito. E o pior é que elas chegam na última semana, mas ntes disso, nos últimos dois meses, levei um par de tombos. Não ria. Da escada foram quatro, na rua duas – e em todas me machuquei um bocado. Será isso o retorno de saturno: quebrar estruturas? E por que essa infeliz coincidência? Não sei. Mas saibam.
Do último tombo, conclui que era hora de voltar… assim que, esse talvez seja o último relato in loco.
Voltar sem esperar encontrar nada além de tempo pro encontro, pra saudade, pro carinho, pra alimentar a luz, a cura do planeta, as coisas boas de se estar vivo.
De tudo que ficou pela metade no Brasil… que fazer, sempre hay… Entregar aos céus e acreditar que toda obra se reverbera no abstrato, e vira outra coisa, às vezes em outra forma, às vezes com outros nomes, acreditar que nada foi em vão. Sobretudo, precisava seguir… na preocupação maior, não de ser mais geógrafa, nem mais artista, nem mais revolucionária… mas nesse momento de vida, de ser mais humana…
Enfim, tanta conversa pra ter numa sombra de mangueira…
Oxalá um dia.
Por aqui fica o abraço, do tamanho do que a fronteira divide mas não separa!

Que carinho bom de receber…
Seus olhos, seus gestos, sua voz chegaram bem pertinho da gente com essas palavras de fazer ver.
Beijo, flor
Grácia disse isso em Abril 26, 2008 às 10:50 pm |
Só eu de novo? tá bonito e triste, mas sei que é viver! Seja bien revenida!
Mago
Ademar Brasileiro Mago Jardineiro disse isso em Abril 28, 2008 às 2:29 am |