Humahuaca e Salinas

… de repente abrir os olhos e ser invadida por uma paisagem árida. Cheia de cores. Siete colores. Organizadas em desenhos aquarelados que há milhares de anos se secaram. Estamos a 4mil metros de altitude, quase do outro lado do continente. Uma batucada pela rua, os niños, de pele marrom, olhinhos puxados, imitam o passo da professora cansada.

Todo dia de janeiro é dia de cortejo em Tilcara. Os tambores, a flauta, tudo de um jeito que só tem aqui.. ou por aqui, sul da Bolivia, norte do Chile, noroeste da Argentina… e, algum simulacro em Buenos Aires, onde tem de tudo. O cortejo termina na igreja, os niños continuam dançando os passinhos coreografados, agora mais felizes, porque os turistas se aglutinam a fotografar.

Na estrada o caminho termina na salina, depois de subir e descer 2mil metros, a cabeça já foi prum lado, a barriga pra outro, quem sabe isso porque ali, antes, muito antes, foi mar. Antes dos Andes, antes da Sierra de Siete Colores… No meio de tanta montanha colorida se abre um vale infinito, uma praia no horizonte, branca que nem neve, salgada porque sal; enchendo um vazio dos olhos.

Na igreja, o peito se permite retumbar os passos infantis, quiçá cristãos, quiçá pagãos?… sem uniforme ou roupa combinada, sem figurino, mas com alegria de dia de estréia, saindo bem na foto…

E então os olhos que antes secos, salgados, se encharcam na doçura do sei lá o quê que invade. E quando a gente vê coisa bonita, lembra de gente outra e tampouco entende ou quer entender porque se está aqui, nesse tempo fora do lugar, nesse tempo fora do ritmo, nesse ritmo quase sem lugar. Qualquer lugar seria, qualquer batucada traria essa noção de longitude, de linhas cruzadas no mapa… de vazio, de ser nada no meio do som, de ser um com tudo que é seco, porque rima com saudade.

E de repente lembrar de pessoas amadas, e quase ser o branco da salina.

~ por visoes_de_mundo em Março 17, 2008.

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