santa Cecília

•Julho 9, 2009 • Deixe um comentário

Beija a vida, vai.

Olha pra ela como olha pro teu grande amor deixa o olho brilhar,

deixa o corpo se empolgar

dê um saltinho ao caminhar.

pq vai, vai na direção do que te apaixona deixa que tudo te apaixone

Perceba que em tudo há fluxo como há nos seus amores

o viaduto que rasga a cidade faz uma curva e revela a arte no seu lado de baixo

no meio do trânsito louco, o louco, mira a bengala e pisa torto pra atravessar a avenida

essa, que vai de leste a oeste todo dia, e parece parada, em seus vermelho gritantes dos faróis de quem pisa no meio e distrai o olhar na janela

o olhar escapa, o retrovisor confessa;

há movimento.

tem gente sonhando na calçada,

tem gente preparando a varanda para ver o por do sol,

mesmo que seja só pela fresta, mesmo que seja só la no alto, dá pra ver o céu mudar de cor.

Vai, vê que a vida se movimenta.

se tiver dúvida, caminhe até aquele brechó, olhe no espelho e descubra que você mudou

que te surpreende o encanto e o desencanto que se enroscam na superfície da tua pele, te envolvem e preenchem teu peito enquanto você fica tentando entender porque a paisagem agora é outra.

Deixa a vida fazer a curva.

O momento ter dois andares.

E daí se o de cima congestiona indo pra oeste, no debaixo o velho atravessa a rua, enquanto os caras jogam carta na calçada?!?

Vc pode descer mais um, o metrô tá ali, pra te levar pra outro canto, onde nada tem a ver, onde tudo tem outra cara, nem leste nem oeste, nem velho na calçada…

e vc vai continuar tentando entender!

O viaduto segue fazendo a curva. Os fluxos variam do dia pra noite, a direção parece outra, mas o rumo é sempre o mesmo. E daí?

Vem. Beija a vida, porque ela é um neném de quatro meses, de bochechas fartas e sorriso fácil. Te esperando paramar. Teu coração inflama, tua alma pede pra ser mais limpa, mais pura, só pra estar ali e ficar o dia inteiro. Acalenta até que chore, e você não entenderá porque chora… A vida grita no seu ouvido, pedindo movimento, e se você desespera, vai perder a graça da próxima hora… Porque chorar, meu caro, é o único jeito que a vida tem pra te fazer perceber que a hora é agora, e não dá nem pra querer entender… e pensar é desespero.

No Mangue Capibaribe…

•Junho 4, 2009 • Deixe um comentário

…a Ilha de Deus destaca-se pela contribuição de forma transformadora na sua dinâmica cotidiana, mesmo diante da ausência e da irresponsabilidade política, fomentadora das mazelas sociais e afirmadora das relações verticais, que persistem e subjugam a criatividade e a dignidade humana”*.

o pensamento cria a ponte; a ponte, o pensamento.
o pensamento cria a ponte; a ponte, o pensamento.

Foi uma pena não estar com o gravador naquele fim de tarde. De lá do outro lado da sala (porque estávamos numa grande roda) como é de costume, coloquei os óculos para ouvir melhor, faço isso quando tenho que ouvir e tiro quando vou falar… sinto que ouço melhor quando vejo bem e talvez por alguma timidez ou vaidade, prefiro não enxergar tão bem enquanto organizo minhas idéias. Mas lá pelas tantas do discurso do Edson – que era pra ser uma resposta a uma simples pergunta – percebi que nem de óculos precisava, que o que ele me trazia era coisa que a alma entende melhor do que os ouvidos, e nem precisa ver pra crer… Mas eu já estava vendo! Ou melhor, sentindo e foi fácil acreditar. Estávamos ali na salinha do Caranguejo Uça: Cris, Neu, Fátima, Edson Fly, Edileine, Marcos, Garotinho, Esmeraldo, o novo amigo israelense que me acompanhava- Gal um grupo de três voluntários italianos, Martina, Martina (sic) e Lorenzo. Cheguei ali através da Terezinha, colaboradora de peso do Carangueijo Uça; nos conhecemos no curso Comunicação, Gênero e Rádio, oferecido pelo Centro das Mulheres do Cabo (veja post em breve) no início de maio de 2009.


Cheguei ali despretensiosamente sem nem imaginar o que veria. Assim que entrei na sede do Caranguejo Uçá achei que tinha que trazê-lo pro Visões de Mundo, mesmo que, não estivesse planejando nenhuma reportagem pr´aqueles dias.

Fui recebida pelas meninas num fim de tarde de quarta feira, e até que chegasse o resto da turma, proseamos sobre os projetos de geração de renda que vêm acontecendo na comunidade. Fátima e Edileine, me mostraram artesanatos em conchinhas e contaram das atividades de complementação de renda que envolvem cerca de vinte mulheres da comunidade.


Tradicionalmente a principal atividade econômica da Ilha de Deus é a pesca. A ocupação da vila começou na década de 1950, por famílias de pescadores que vieram das mais diversas regiões de Pernambuco, especialmente para exercer a pesca como atividade econômica. Mais recentemente uma empresa de pesca chamada Netuno identificou os manguezais da Ilha de Deus como uma área propícia para a criação de camarões. Da pesca à produção de camarões, a paisagem em torno da ilha foi perdendo o mangue e dando espaço aos viveiros de camarões. O impacto ambiental consequente desta atividade praticada nessa escala é praticamente irreversível, uma vez que as árvores do mangue foram derrubadas e os sedimentos alagados. Economicamente, o estudo de Ferraz e Callou, aponta que os salários giram em torno de 100 a 400reais. A quase totalidade das pessoas envolvidas no cultivo de camarões são homens, o que provocou historicamente certa vulnerabilidade socioeconomica às mulheres da ilha. Os viveiros de camarão geram empregos para muitos moradores e também para gente de fora… Porém, com a chegada dessa nova economia, chega também um novo personagem na vida econômica da comunidade: o atravessador. Agora não é mais o pescador quem define o preço e pra onde vai o seu pescado, o atravessador media a relação com a empresa, acumula custos nessa negociação e diminui o faturamento do produtor…


É assim, Brasil afora, mundo adentro.


Não é à toa que a palavra que mais ouvi ali naquela quarta-feira foi resistência.


Resistência à quê?

“Resistência à inércia social que a história e as políticas públicas vêm condenando a sociedade, vitimizada pela consequência da globalização e modernização desordenada e exploratória.” Me ocorreu assim, na lata, inspirada na lembrança do teor do discurso do Fly. Nas palavras caranguejeras, o povo da Ilha de Deus não é “coitadinho”, é um povo que sabe seu valor e quer se autogestionar – e tem conseguido.

O Caranguejo Uça aparece em algumas reportagens como Associação, mas no Blogue gerido por eles mesmos, se apresenta como “Ação Comunitária”. Em sua quase uma década de existência nunca precisou ou pretendeu se institucionalizar… Resistência e criatividade, de existir pela ação. E pela comunidade. Muitos colaboradores têm vivido para o Caranguejo, mesmo sem ter conseguido viver exclusivamente do Caranguejo, mas ao que parece isso nunca foi algo que os fizesse desistir, ao contrário, o Caranguejo é movido a paixão, ideologia e fé, bem se vê.

Fly começou contando a história do Caranguejo assim “éramos vários viciados, marginalizados, gente com o pé no crime…”… com os olhos mais cheios de amor que de rancor, como um bom Guevarista que é. Isso porque a história transcorre e circula. Era quando a moçada se reunia pra fumar um ali no sótão que a carga da “marginalidade” ganhava sua expressão mais criativa: de se perceberem um grupo e não um bando; de se perceberem diferentes, mas iguais; de se perceberem capazes e não vitimas e, então, no meu poético entender, de perceber que a marginalidade poderia ser uma ilusão social e que haveria meios de se criar a sociedade que se sonha, afinal dela tod@s nós fazemos parte, enfim, que si, si puede. Dali do sótão, passaram a ser educadores da Escola Comunitária que ajudaram a construir ali na Ilha. Que agora está do outro lado do muro, a quem reconhecem o mérito do começo de tudo… mas preferem seguir atuando de sua maneira independente e envolvida.

Esmeraldo, que trabalha como vigilante numa empresa de segurança, me contou “eu, educador… imagina!”, e pelo jeito mandou bem, de fala mansa e atenciosa, presença carismática, discorre pela história e organização espacial e econômica da ilha como um professor de geografia, dos bons, seria capaz de fazer. Na Escola Comunitária ensinava o pessoal a fazer pão, divina profissão!

Na Ação Comunitária Caranguejo uçá, atualmente, além dos cursos de geração de renda – neste momento acontecendo uma formação em “guia turístico com responsabilidade ambiental”, promovida por uma ong italiana – ali já rolou curso de fotografia, música, arte… O evento “terças no mangue”, onde acontecem intercâmbios com as universidades, educação ambiental pra comunidade e orientação pros pescadores a respeito das maneiras mais sustentáveis de realizar a extração do caranguejo e outras práticas. A rádio poste Boca da Ilha funciona desde o início do Caranguejo, com seis caixas de som espalhadas nos postes da vila, ela informa, une e diverte os moradores da Ilha de Deus e os visitantes da vila Imbiribeira, ali do outro lado da Ponte Vitória das Mulheres (no começo, eram as mulheres que conseguiam tudo aqui! – contou Esmeraldo. A diversidade cultural das famílias de migrantes que colonizaram a ilha vem sendo revelada na reconstituição das festas, danças e ritmos, incentivada pela própria comunidade que gere a Ação Comunitária. Do coco ao maracatu e tanto mais que no sertão e em outros mares nosso povo brasileiro vem celebrando… muito se misturou e aportou ali, na foz do rio Capibaribe.

E é daí que a história faz o círculo – ou “arrodeia” como se diz nessas terras do norte – Ilha de Deus é um dos poucos lugares da periferia que vive seu cotidiano em paz. Me disse o povo de Recife que é comum em outras comunidades como essa, a moçada se reunir pra fumar crack nas esquinas com arma na cintura, que ninguém sai à noite e aquela coisa toda que a televisão gosta de mostrar pra gente. As duas vezes que estive na Ilha, sai de lá de noitinha. Fui caminhando até o metrô que fica depois do bairro da Imbiribeira, trocando gentis boas noites com os moradores e moradoras sentados nas cadeiras de praia na calçada ou circulando no mercadinho, na vendinha… Na segunda vez, ainda paramos pra tomar um sorvete e conhecer os amigos da Edileine. Dizem que nem sempre foi assim, que já teve quem chamasse a ilha de Ilha Sem Deus, mas tem sido com muito trabalho que Deus voltou a cuidar dessas margens…

A Ilha, assim como a comunidade de Imbiribeira e como boa parte de Recife e Olinda e provavelmente outros lugares desse Brasil, sofre de um mal que é realmente inconcebível num século vinte e um, depois de tantas ecos 92, rio+10, fóruns sociais mundiais, e tantos e tantos avanços nas discussões de saúde e meio ambiente… Ali o esgoto circula onde circulam as crianças, onde circulamos todos nós, no ir e vir do todo dia. O esgoto passando na rua, na beira da calçada, quando há calçada. Na Ilha de Deus a situação é ainda mais grave, porque a vila está sobre um aterro de mangue. O assoalho do mangue, por sua fragilidade e pelos seus componentes é considerado um sedimento, ou seja um material formado por matéria orgânica, não chegando ainda na condição de solo. É um material alagadiço por natureza. A água vem de baixo pra cima e a que vem de cima pra baixo, penetra, mas muitas vezes não drena. Então o esgoto fica ali, se espalhando pela via, misturando-se à lama que bem ou mal leva-se pra casa todos os dias. Algumas casas, de acordo com os relatos, possuem fossa séptica, mas isso ainda não é um programa do Estado. Esse esgoto que vai pro rio, facilmente contamina a pesca, e nos arredores da ilha ainda se vê o lixo envolvendo as palafitas, as demarcações dos viveiros de camarão, as cordas das embarcações. O lixo é um problema mundial. Já não nos vale dizer que é apenas um problema de educação. É também. Mas não só da educação ambiental que se faz num projeto social. Ele vai além. Ele começa no consumo, passa pela necessidade de campanhas massivas, e se encerra (não sei se se encerra…) na criação de políticas públicas adequadas de destinação dos resíduos. A foz de um rio é um lugar estratégico para entender esse drama.


A Ação Comunitária Caranguejo Uça com tão pouco tempo de existência envolveu a comunidade e certamente contribuiu para o que muitas vezes parece ser o mais difícil de se transformar: o subjetivo, a consciência, não só no sentido de trazer responsabilidade pro dia a dia, mas da consciência no sentido da expressão da alma mesmo, de poder superar a preocupação imediata com a  sobrevivência, das mazelas humanas (que nos afligem a tod@s), e trazer pro cotidiano a arte, o conhecimento, o senso de comunidade, a comunhão com o vizinho, a ampliação da família, o direito de sonhar, de criar, de se informar, de criar e de ser notícia, de produzir boas notícias…


Edson Fly diz lá no blogue: “O Caranguejo é sem dúvidas resultado da ausência de iniciativas políticas, mas que não nos levaram à marginalidade. Essa forma de manifestação podia ser com armas, mas as famílias daqui escolheram a arte, do teatro, da música, da costura, da própria arte de tear as redes de pesca”.


foto aérea da ilha de deus

foto aérea da ilha de deus


*epígrafe retirada do blogue www.caranguejouca-ilhadedeus.blogspot


Algumas leituras:

* O estudo de João Henrique de Melo Ferraz e Angelo Brás Fernandes Callou está no site:

http://www.alaic.net/alaic30/ponencias/cartas/Tecnologia/ponencias/GT18_12%20de%20Mello%20y%20Bras.pdf

*Ananda de Melo Martins, Cláudio J. M. de Castilho, Hernande Pereira da Silva:

http://www.abep.nepo.unicamp.br/encontro2006/docspdf/ABEP2006_296.pdf


O Blogue do Caranguejo Uça:

* http://www.caranguejouca-ilhadedeus.blogspot.com/

•Junho 4, 2009 • Deixe um comentário

“não diga que as crianças são o nosso futuro… pega mal”

disse um velhinho no filme argentino AVELLANEDA CLUB.

AGROECOLOGIZANDO O PENSAMENTO*

•Junho 1, 2009 • 3 Comentários
jardim agroflorestado pelo mago jardineiro - 2008
jardim agroflorestado pelo mago jardineiro – 2008

Esses dias que descobri comecei a aprender sobre generosidade e abundância quando fui trabalhar com os agricultores sem terra no oeste do Paraná. A palavra generosidade começou a fazer parte do meu dicionário quando presenciei a distribuição e trocas de sementes e mudas entre agricultores orgânicos. Isso não era pouco. O ato de dar uma muda ou semente significa garantir que essa espécie continue existindo e se proliferando. Receber algo em troca é assumir essa mesma responsabilidade.

Em oficinas de agroecologia com o amigo Mago Jardineiro, pude entender a verdadeira magia que ele realizava: sementes surgiam e nunca acabavam de surgir, alegrando os oficinandos que sabiam que dali enriqueceriam seus jardins com novas espécies de alimentos, remédios, ornamentos para os insetos e outros animais. Pude entender o que é abundância na Natureza entrando em terrenos baldios e vendo brotar alimento, caminhando na estrada e numa cerca viva já meio abandonada encontrar mudas que embelezariam jardins e produziriam outras cercas vivas em outros lugares; tirá-las dali era um favor que fazíamos ou, no mínimo uma ação de baixíssimo impacto para o lugar, que rebrotaria a tempo de alguém precisar deles e de grande utilidade para a terra que receberia aquela muda ou semente.

Também no trabalho isso se realiza. Lembro-me da minha hesitação em pedir ajuda aos amigos para dar conta do quintal da casa onde eu morava – que era também a casa onde funcionava nosso escritório – e que precisava de poda, de plantio, de manejo. E eu não sabia muito bem por onde começar. Ou até sabia; tive um sonho de que o abacateiro deveria ser podado para entrar luz no quintal. E foi assim, contei o sonho ao amigo Neto, técnico em agroecologia e assentado do MST e, com seu jeito fazedor, não teve dúvida em tirar um domingo de sol pra podar o “meu” abacateiro. A partir daí o quintal que era o lugar de sentar pra conversar no fim da tarde, passou a ser um lugar coletivo, e em pouco tempo, com a chegada de novos amigos, foi recebendo novas técnicas de manejo e passou a produzir muito pras nossas saladas e frutinhas que refrescavam o quente verão de Queda do Iguaçu. Além de fornecer mudas para outros jardins. Esse foi meu primeiro laboratório, distribuição de sementesonde tive chance de me sentir à vontade para contemplar e despertar os sentidos para as relações que ali se criavam, tarefa essa que gostava de fazer sozinha, talvez porque fosse o momento de me despedir das minhas próprias ignorâncias e me deleitar no encantamento, umas das poucas coisas que continuaram sendo “minhas”, mas absolutamente passíveis de compartilhar, graças a deus.






No campo, a expressão “ajuda mútua” pode soar acadêmico demais. Mas sem precisar de muito argumento, ela brota no cotidiano, por puro costume… lógica ou caráter? A universidade está cheia de teses e capítulos de teses a discutir esse assunto. E nós, nessa pós modernidade com cara de fim de mundo, nos voltamos a essas práticas para aprender como sermos mais humanos. A naturalidade em relação ao trabalho coletivo também salta aos olhos dos forasteiros, mas ele é uma ferramenta óbvia para garantir que as coisas aconteçam – aí está a lógica!

Na realidade do Movimento Sem Terra, mesmo que muitas das pessoas que estão acampadas ali tenham a memória do trabalho coletivo em suas origens, ele não aconteceria na escala que acontece, se não fosse uma rígida cobrança de todo o sistema organizativo do movimento social. Há de se lembrar que o movimento social não é uma entidade política que surge da abstração da cabeça de algumas pessoas. Ele é resultado principalmente de uma realidade que confronta-se com a escassez de recursos, de direitos, de assistência e encontra no coletivo, a abundância, libertadora. Provavelmente mais libertadora do que o próprio acesso à terra, mas essa é uma tese que eu gostaria de mais tempo de vida e vivência para defender.

Assim, na organização cada um exerce uma função na rotina do acampamento que se torna daí uma comunidade. Desde o atendimento na farmácia da terra até a construção dos barracos, da cozinha coletiva que faz o sopão para as crianças à coleta de alimentos na cidade para o mesmo sopão. E de situações pontuais, como um evento para discutir o futuro do assentamento ou de formação de educadores, agentes de

assentamento celso furtado - comunidade do palmital - 2006

saúde ou o que seja, que acaba por mobilizar a todos na divisão de tarefas para que o evento aconteça. E ninguém pergunta o por quê ou por quanto. Pode surgir um “por que não?” Porque, de fato, dar seu tempo ao coletivo é sim um ato de generosidade, mas também é um ato de existência, uma maneira de participar, sentir-se parte ou ser parte. E assim a vida se realiza.

Importante dizer que comunidade não significa harmonia, e menos ainda homogeneidade. Comunidade é algo mais próximo de comunhão, no sentido figurado e não religioso, que significa participar e compartilhar de certas crenças ou ideais. E cada tipo de comunidade comunga alguma coisa mais do que outra. Os acampados do Movimento Sem Terra comungam a luta pela sobrevivência, primeiro. E nela está inserida à luta pela terra e à realização da cidadania que implica no acesso aos seus direitos e à formação enquanto cidadãos também – coisas que nós, seres urbanos andamos esquecendo de reivindicar.


atividade de jogos cooperativos - acampamento do silo - mst - pr - 2006

atividade de jogos cooperativos – acampamento do silo – mst – pr – 2006
Se alguém ainda acredita que a revolução vai se dar através da luta de classes e da tomada de poder pelo proletariado, peço amorosidade em aceitar minha opinião de que o caminho é outro. Embora o movimento social tenha se desenvolvido sob essa crença, a verdadeira transformação tem se dado no âmbito da subjetividade. Ou seja, na transformação das relações sociais entre aqueles que participam do movimento social. E, ainda, nas transformações espaciais que o movimento tem sido capaz de promover no território brasileiro. Com consentimento do Estado e sem dúvida, sem deixar de ser a classe trabalhadora submetida a esse Estado, mas, contudo, porém, ganhando poder de protagonista dentro do cotidiano, na medida em que se apodera de suas escolhas, na medida em que garante o suprimento das necessidades básicas de sua família através do trabalho.

E, por uma experiência curta, mas que considero profunda, posso defender que o empoderamento do agricultor está muito intimamente ligado às relações que ele estabelece dentro da comunidade. Aqueles que se organizam em associações e através delas potencializam o seu papel de produtor, está mais seguro diante de instabilidades econômicas, porque no coletivo pode-se ter mais acesso às informações e, assim ter mais condições de tomar decisões; pode-se ter mais acesso a créditos para viabilizar o desenvolvimento da comunidade. Têm-se mais consciência do coletivo e aí os valores éticos de convivência passam a ser premissas de sobrevivência. Quando há ausência de ética, se o grupo é mais forte, o agricultor fracassa; se o grupo é fraco, o poder, a coerção tomam conta das relações e, em pouco tempo o grupo também ruirá.

A agroecologia tem um papel fundamental nessa relação. Ao optar por um cultivo livre de agrotóxicos, o agricultor está assinando um termo de emancipação em relação ao círculo vicioso de compra de sementes, compra de insumos e inércia na venda de seu produto.

Embora muitos agricultores agroecológicos consigam se desenvolver somente com a força de trabalho familiar, esse caminho pode ser mais difícil nos dias de hoje, principalmente porque há muitos desafios a se enfrentar para desenvolver-se fora desse círculo vicioso. Não vou usar o termo nadar contra a corrente, porque tão ultrapassada quando a idéia de que negros no Brasil são uma minoria étnica é a de que a agroecologia é uma prática de resistência, exercida por poucos. Esse novo paradigma pode nos encher de esperança e eu fielmente acredito nele. O que acontece é que primeiro, a agroecologia ainda é tratada como exceção; na mídia ela aparece mais nos programas de ecologia do que de agricultura, mas quando aparece é curioso de notar que é apresentada quase como uma obra autoral, dando destaque sempre à personalidade do agricultor, a origem o conhecimento, enquanto as matérias sobre agricultura convencional são totalizantes e impessoais, falam de produtos, safras, números… E é porque é assim mesmo, o agricultor agroecológico está próximo da terra, da produção, e o ideal é que tenha poder sobre todo o ciclo de seu produto, enquanto que o agricultor convencional, muitas vezes é o grande fazendeiro, administrador, distante dos processos, mais próximo dos resultados, e virá a público para apresentar orgulhosamente seus números alcançados, enquanto que o trabalhador que está aplicando veneno dificilmente terá condições de orgulhar-se da atividade que adoece tanto seu corpo quando o meio em que vive e trabalha.

E aí está o segundo problema para conseguirmos a visibilidade em relação à agroecologia: enquanto ela estiver espalhada no mapa, ela criará lacunas de enfraquecimento tanto da produção quando de seu verdadeiro sentido. Uma produção livre de venenos cercada por produtores convencionais será prejudicada tanto economicamente quanto ambientalmente.

Por isso, a solidariedade passa a ser um dos fatores éticos do agricultor agroecológico; ele deve incentivar seus vizinhos à conversão e unir-se a eles em associações para garantir soberania territorial da prática da agroecologia em alguma escala. Unindo-se é mais fácil também criar barreiras ecológicas para que o veneno não atinja suas produções, o que pode acontecer tanto através dos ventos de maneira física, ou do transporte de sementes e pólens através de pássaros e abelhas ou ainda através da dispersão de um gene transgênico desenvolvido em laboratório para disseminar espécies agricultáveis e também de florestas nativas.

A verdadeira revolução nesses tempos virá através da mudança das relações sociais em toda as escalas, mas principalmente na escala do cotidiano. É aí que os indivíduos terão condições de ter acesso às informações necessárias para direcionar suas práticas de maneira a emancipar-se, não mais do Estado somente_ com a ampliação da consciência humana. Este, o Estado, será mais coagido a atender seus cidadãos e a servi-los, mais do que simplesmente condicionar seu desenvolvimento. E a verdadeira emancipação virá dos limites humanos, mas pra isso, a vida tem que encontrar espaço para realizar-se. Não mais será possível pensar numa vida isolada, e a agroecologia vem-nos ensinar isso. O trabalho exige soma de talentos – plantar, vender, administrar, buscar novas informações, aprender com a natureza, participar politicamente – e dedicação constante. A diversidade de idades, sabedorias e interesses, o ritmo de cada um, tudo isso cria uma realidade própria, voltada para o desenvolvimento comunitário, tendo a agroecologia como um serviço para toda a humanidade.

Através dela vencemos o paradigma do homem (sic) querendo vencer e dominar a natureza. Temos aí, o trabalho cooperativo, entre seres humanos e para com a Natureza. Preservando,cultivando, fornecendo saúde. Emanando a sabedoria de quem Nela vive e A observa. É mais do que sábio perdermos o medo do que parece ser uma visão romântica da vida e das relações. É preciso desaprender a reproduzir a lógica do mercado em nossas argumentações. De que nos interessam tantos números?! Muito mais nos vale, enquanto “raça humana”, que a terra produza alimentos, que as pessoas se alimentem e que tenhamos saúde. Isso é simples. A Agroecologia é a semente. E na semente está uma mata inteira, como diz o poeta**.




Legenda das 3 últimas Fotos:

Todas as fotos foram tiradas durante a realização do Projeto Fruta no Pé, Sombra e Água Fresca, no Assentamento Celso Furtado (MST/PR), Quedas do Iguaçu – PR

WWF-Br e Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST. Coord. Helena Ma. Maltes.

1) Distribuição de sementes pelo Ademar Mago Jardineiro, 2006.

2) Distribuição de sementes a
tividade, coord. Agr. Lisandro Rauni Inakake de Souza, 2006.

3) Atividade de Jogos Cooperativos, facilitação educomunicadora Amanda Barral, 2005.





*MagoJardineiro que tb é poeta chama seu trabalho de Jardinagem do Planeta e do Pensamento… Esse texto transmite o que entendo por Jardinagem do Pensamento…

** músico e compositor Franklin Amorim, Recife, PE

•Maio 11, 2009 • Deixe um comentário

este blogue está em construção!

para ver o clipping do Visões de Mundo: www.mirandomundo.wordpress.com

e + outras coisinhas que ando mirando: www.barrals.wordpress.com

não esqueça de registrar sua visita!

até breve!

chove chuva-fev2009

•Março 9, 2009 • Deixe um comentário

chove chuva-fev2009, upload feito originalmente por barral´s.

Parto de Lótus

•Janeiro 11, 2009 • Deixe um comentário

Era verão, janeiro de 2009, aqueles dias que não tem quase ninguém em São Paulo, mas quem está se encontra.Cheguei em casa em horário já muito próximo da meia noite_ no horário dos home, não no horário de deus; como bem disse um pescador de Cananéia anos atrás. Já havia conversado com três pessoas na net quando a chuva caiu em tempestade. Fiquei onde estava. Busquei no pensamento se havia algo que deveria fazer por causa da chuva… o tonel de captação de água estava cheio, não lembrei de goteiras, janelas fechadas… talvez velas se acabasse a luz… um grito de gato no quintal e… puxa, a Lótus estava gravidíssima e hoje mesmo pensamos que ela poderia estar por dar a luz. Por um segundo tive vontade de chorar por estar sozinha… o que eu vou fazer??? Já era hora depois da meia noite, no horário de uma cidade dormindo ou ocupada com alguma coisa interessante. Vamos lá, abri a porta do quintal e as duas filhotinhas que me acompanhavam amorosamente nos últimos dias entraram felizes. Fui à busca da mãe. Na penumbra molhada subi até o galpão biosconstruído da Morada. Dentre tantas tomadas uma acenderia a luz. Lótus?! Lótus?! Ela estava no pior lugar, uma viga de madeira que unia os dois mezaninos na qual eu já declarara que não tinha a menor habilidade para subir. Em minutos amaldiçoei minha mania de desistir das aulas de dança, kung fu… Mas recorri a outra estratégia. Chamei-a com convicção e expliquei pra ela que ali não era o melhor lugar para parir. Os vizinhos que me desculpassem por tamanha insanidade a essas horas, mas era sincero, ela tinha que entender. Lótus, vamos pra dentro de casa. Vi que ela não ia descer enquanto as filhotinhas e o filhotão – havia um rapaz na parada – continuassem a olhá-la. E desci de volta pra dentro de casa chamando as pequenas, minhas companheiras fiéis que me seguiram saltitantes. Feli e Morgana são as pequenas filhotes da Lótus, ainda em dúvida do nome desta última que de Fadinha passou à Morgana e hoje mesmo ainda me tentou chamá-la de Alegria, mas inevitavelmente iriam me perguntar, porque uma é Felicidade e a outra Alegria e certamente iriam buscar algum motivo filosófico pra isso, mas não seria nada além da possibilidade de chamar uma de Feli e a outra de Alê, sendo que as duas me faziam feliz, alegre, sei lá…. enfim, ela continua sendo a SaFadinha sem nome ou com vários… Desde que vim morar na casa passo horas observando as duas brincarem dinamicamente. Elas se mordem, rolam juntas no chão, se escondem uma da outra, enganam uma à outra… Nos últimos dias que tenho ficado bastante sozinha, elas têm se mostrado duas deliciosas companheiras se enroscando nos meus pés, me chamando pra brincar, me mordendo como mordem uma à outra, pedindo carinho com o corpo inteiro, cada uma do seu jeitinho, a Feli mais meiga, quietinha, aprendendo a miar e a Fadinha safadinha, tagarela,dando cambalhotas, miando, me dando umas patadinhas pra eu chegar mais perto!

Depois que chegamos no quintal, Lótus resolveu descer com sua enorme barriga e pararam todos na porta a olhá-la. Para trazê-los pra dentro coloquei o prato de comida na cozinha. Fechei a porta. Tive que expulsar uma barata que a pequena Feli trazia na boca e dar uma bronca pouco pacífica nela que logo entendeu ou ao menos se encolheu num cantinho da parede e desistiu de brincar. Ficamos nós cinco dentro da casa, eu, Feli, FadinhaMorganinhaAlegria, Cosminho e a mãe de todos, Lótus. Voltei pro meu trabalho enquanto a Lótus espantava a todos de perto do prato de comida. As pequenas dividiam o tempo em brincar e a olhar a mãe com temor, a ponto de se arrepiarem de medo quando ela chegava perto. Quando a gata prenha veio pra sala as duas pequenas se esonderam embaixo das minhas pernas. Incrível como eu poderia ser mais inofensiva do que um ser da mesma espécie que, por sinal era mãe delas! A grávida magestosa atravessou a sala e deitou no sofá sem tirar os olhos do único macho presente. Lembrei da Dani,  uma amiga contando do momento do parto natural que fez em casa, que “virara bicho”, que não queria ninguém por perto, especialmente homens, e que até o companheiro dela teve dificuldade de se aproximar. Achei melhor por o rapaz pra fora. Na chuva mesmo, ele ia se virar. Era um momento de mulheres. Voltei e sentei ao lado da Lótus, que, por sinal estava ao lado do meu local de trabalho. Continuei digitando. O que aconteceu daí pra frente foi muito inusitado e vai parecer loucura mesmo. Eu nunca tinha tido contato direto com essa gata até hoje à tarde quando tentei colocar a mão na barriga dela na presença de um amigo e ela rosnou pra mim deixando claro que não era pra eu me meter na história. Sem que eu fizesse absolutamente nada, nessa noite ela subiu no meu colo e ficou de pé, apoiada nas minhas pernas que estavam cruzadas – em lótus, por sinal. Acariciei a cabeça dela, o pescoço e começamos a nos comunicar. Ela me olhou nos olhos daquele jeito que os gatos sabem fazer, e eu lhe disse com firmeza – realmente não tive controle de onde saíram essas palavras – “estou com você, vai dar tudo certo”. E pus a mão na barriga dela, que consentiu se aconchegando mais no meu colo. Trocamos algumas impressões e ela se deitou ao meu lado de novo. Em menos de um segundo começou a rosnar para as filhotes e percebi que queria mais privacidade. Me senti uma parteira nata. Uma doula, não sei; mas percebi que fui aceita. Desde que minha amiga Tatu resolveu fazer um parto natural no nascimento da Nina, o assunto começou a me envolver animicamente. De lá pra cá praticamente todas minhas amigas engravidaram ou eu me tornei amiga de muitas mulheres lindas, queridas grávidas ou com filhos. Graças ao bom deus, a maioria delas envolvida com parto natural e humanizado. Hoje mesmo havia passado a tarde com minha irmã que está grávida de cinco meses do Thom… uma das maiores alegrias que já tive na vida foi receber a notícia desta gravidez. É incrível, é inexplicável o que isso significa na vida de uma pessoa. Pouco antes da Tatu, vivi uma epidemia de amigos homens vivendo as transformações da paternidade. E pude acompanhar bastante de perto as transformações e aprendizados de uma grande amiga, cuja primeira filhota já está na quarta série do ensino básico. É um tema intenso. É como se viesse à tona toda a razão de existir nesse mundo. Todo o instinto de doação e entrega rompe as carapaças da alma e o amor parece costurar todos os amálgamas mal emendados. Ao mesmo tempo que as sombrancelhas ganham outro peso – principalmente a dos homens que não têm – será? – os hormônios transformados para que o entendimento acompanhe a vida que chega; e que chega chorando pq leva tapinhas na bunda, senão chegaria rindo desses adultos bonachões que ficam criando tanta caraminhola para desenvolver formas de simplesmente estar ali e corresponder aos princípios básicos da vida, amor,comida, cuidado. A aprender a ser humano.

Somos tão bobos achando que não estamos prontos. A vida não está pronta. A vida não está pronta pra nada, esta é a verdade. Aninha, mãe da Clara Lua, dizia que não tem essa de estar pronto pro filho, o filho também não está pronto pra você. E acho que é isso mesmo ou o contrário; a vida se faz quando a gente se joga ou alguém nos joga pela janela… se vira. Conheci uma guria na Argentina que estava lá para desanuviar a cabeça, descansar do trabalho intenso que fazia com pessoas com problemas mentais na Suiça. Na primeira semana no país saiu pra viajar para o norte e conheceu um argentino no ônibus. Se encantaram e começaram a se encontrar. Muito pouco tempo depois ela engravidou. Ela em Buenos Aires e ele em Catamarca, ela analisou racionalmente a situação e decidiu fazer um aborto. Parecia inviável ter uma criança agora, não sabiam em que país iam viver, ele não falava francês, ela não podia ficar na Argentina… Ele tinha um bom trabalho, era consultor autônomo e não teriam como estruturar uma vida na Suiça. Várias questões. Então ela viajou para o norte para encontrá-lo, para que lhe desse suporte para a recuperação emocional depois do aborto. Ela foi com o comprimido na bolsa. Foi a última vez que nos vimos, porque eu voltaria ao Brasil antes de que ela voltasse a Buenos Aires. Senti muito. Éramos seis mulheres na casa, somente duas de nós sabiamos da gravidez, eu e a dona da casa, que precisava saberporque nossa amiga ia deixar a casa. Alguns dias depois, recebemos uma mensagem no celular, eles haviam decidido ter a criança. Foi um alívio para nós. Depois não soube de mais nada. Um dia mandei um email e ela me respondeu rapidamente, dizendo que estava na Suiça, saindo de férias e na volta me contaria tudo. Achei que ela tinha mudado de idéia ao voltar a seu país e não ia ter a criança. Anteontem recebi um email seu. Muito sintética, me contou que seu filho tinha nascido na noite do dia 30 de dezembro, na banheira da sua casa, alguns minutos antes da parteira chegar. Assim que, em suas palavras, seu companheiro foi quem fez o parto. Foi uma história linda. A vida tem sua força. Quando quer, ela acontece. Não depende da nossa limitada consciência ou tendencioso desejo. Ela vem.

Paulinha, a moradora-anfitriã da Morada, fez seu parto com uma garota incrível, que,com 24 anos já fez dezenas de partos por todo o mundo. Cursou uma escola de parteiras, morou com um xamã…Uma mulher linda. Quando a vi na foto tive a impressão de já tê-la visto, mas era impossível. Soube dos detalhes do parto, fizeram um documentário e era como um sonho; perfeito. Um momento de paz, de receptividade e conexão com o que estava por vir. Não era pouco, era uma vida. Muita água,um parto na banheira, água nos olhos meus. Quando Paula olhou nos olhos da Violeta, foi visível a surpresa do encontro. Eram dois seres que estavam se conhecendo. Re-conhecendo? O pai, sensível que é, foi fundamental. E acredito, por ter participado tão ativamente do parto, pôde também transformar-se em pai, de verdade, instintivamente.

Achei que eu ia ser a doula da Lótus. E lá fui eu. Coloquei as filhotinhas pra fora como fiz com Cosminho. Confio nos bichos, sempre acho que eles sabem se virar, principalmente gatos. Adoro observá-los e aprendo um monte. A mãe pareceu me agradecer. Ela tinha os olhos mais tranquilos. Estava no seu posto, ao lado do meu. Acho que entendeu que eu ficaria ali a noite inteira. Com um frio na barriga, mas estava lá. Coloquei um kiirtan. BABA NAM KEVALAM, TUDO É AMOR, TUDO É CONSCIÊNCIA SUPREMA, esse mantra é muito poderoso. Uma vez pude trazer um siri até minha mão cantando esse mantra. Tenho medo de contar isso aqui e parecer uma metida à xamã, mas é tudo verdade. E nos últimos tempos essa conexão com bebês e bichos têm feito meu coração sorrir bastante. Não estou preocupada em ter filhos nem ando pensando em tê-los tão já. É outra coisa. É a sensação de estar desafiando um mistério. O mistério da vida, do que não se comunica de maneira óbvia ou conhecida. De um mundo sutil que desaprendemos a perceber. Foram alguns segundos pra Lótus relaxar e deitar a cabeça no sofá. Pude colocar a mão na barriga dela e ela respondeu ao carinho se aconchegando. Senti os filhotes se mexerem. Meu palpite é que são três porque a barriga está imensa. Mas nunca tinha reparado tanto em uma gata grávida (por que tem que falar prenha?) então não tenho muita idéia. Ficamos ali um tempão. Ela descansando, atenta, vez por outra o rabo manifestava, mas muito raramente. Estava realmente aceitando minha mão esquerda em sua barriga. Com a direita eu continuei postando fotos na internet… mas permaneci atenta. Quando já passava das três, no horário dos gatos e da internauta, resolvi tomar um banho quente como gosto de fazer pra esquentar o corpo à noite. Ela estava bem, tranquila. Apaguei as luzes e deixei-a com o mantra. Quando volto, encontro Lótus e sua imensa barriga (é inevitável fazer essa observação, pq ela está realmente imensa!) saindo do meu quarto, olhou pra mim e deu um miado como quem me procurava, me dando uma bronca. Respondi à altura. Deixei minhas coisas e a chamei de volta pra sala. Ela foi até a porta da casa e miou de novo… entendi que não ia ser hoje minha noite de parteira e deixei a guria cair na noite, torcendo pra que não se enfiasse num canto e resolvesse parir. Mas acho que não. De todo modo, continuo acordada. Um pouco decepcionada, esperando outro miado, ouvindo The Doors.

O mundo de acordo com a Monsanto

•Janeiro 8, 2009 • Deixe um comentário

Minha irmã Adriana,  ligou lá de Curitiba “ouvi no rádio que vai ter um debate aí na Geografia com a diretora de um filme sobre a Monsanto… uma francesa!” .

Largamos tudo aqui na Morada da Floresta,  e fomos os que estavam em casa, eu e Claudião, que levou as ervinhas do kumbaiá para  continuar dichavando ali, na primeira fileira perfumando o auditório sizudo da Geografia da USP…

Talvez muitos adjetivos possam descrever o documentário O Mundo de Acordo com a Monsanto; “revelador” é o que melhor me soa nesse momento. Isso significa que quem não quer saber das verdades que se colocam em nossas mesas todos os dias e organizam a nossa sociedade-zinha, não precisa ver. E continua… contribuindo com um sistesma centrado na exploração humana, animal, ambiental, que tem por consequência destruir a nossa saúde de uma maneira bem suave, lentamente, a gente quase não associa a vida que a gente leva, os condicionamentos do nosso pensamento, as limitações da nossa felicidade com o que a gente come. E tudo isso é brutal. Esse seria o segundo adjetivo, talvez.

Dirigido pela francesa, jornalista independente, Marie-Monique Robin. Admirável!

Na primeira semana de dezembro, a Prof.a. Larissa, do Depto de Geografia da USP, organizou um encontro entre Alex Kawakamir do MST de São Paulo, Raphael da Cruz, do Greenpeace, e a diretora Marie-Monique Robin para discutir o tema “transgênicos”.


Vá ver. Tem no youtube.
http://www.youtube.com/watch?v=swVjzIVqRUA

ou, se preferir a Radical Livros já editou a versão em português:
http://www.radicallivros.com.br/loja/

florcitas

•Janeiro 7, 2009 • Deixe um comentário
flores

florcitas, upload feito originalmente por abarral.

Desigualdades Etno-raciais

•Novembro 22, 2008 • Deixe um comentário

Foi a primeira vez que passei o feriado do dia da Consciência Negra em São Paulo.
Foi bonito de ver. E revelador em vários sentidos. Interessante estar de volta.
Envio pra vcs um livro para download que acabo de receber de um amigo e pode interessar, caso ainda não conheçam.

Esse feriado me parece uma linda conquista para esse momento histórico. Felicito os que permanecem se dedicando às transformações e evoluções da consciência.

Ipea lança livro “Desigualdades raciais”, com download gratuito

21/11/2008

O Ipea lançou ontem (20/11), no Dia da Consciência Negra, o livro “Desigualdades raciais, racismo e políticas públicas 120 anos após a abolição”.

O livro traz análises inéditas sobre a política de cotas brasileira e sobre os números dos censos e Pnads desde 1890 que confirmam que a população brasileira volta em 2007 a ser de maioria negra como fora no primeiro registro oficial confiável, de 1890.

O mais novo lançamento do Ipea está disponível na íntegra gratuitamente no sítio eletrônico do Ipea (www.ipea.gov.br). Basta clicar sobre a reprodução da capa e, na página da sinopse, clicar em “acesse o documento”.

“Não é que o Brasil esteja se tornando uma nação de negros, mas está se assumindo como tal”, destaca o pesquisador Sergei Soares, um dos autores do livro.

Para o organizador do livro, Mário Theodoro, diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Ipea, é muito importante essa tomada de consciência da população negra e a conquista de direitos no Brasil. “Mas os negros vivem ainda hoje uma situação de enorme desigualdade em relação à população branca. Com menos empregos, salários menores, menos acesso a escola e universidade, muito menos acesso a rede de saneamento básico e muito mais pobreza.”

O livro apresenta um conjunto de estudos enfocando diversos aspectos da questão racial no Brasil.

- Cap 1. Inicia com um enfoque histórico que analisa a formação do mercado de trabalho brasileiro à luz do passado escravista e da transição para o trabalho livre.

- Cap 2. Sobre a discriminação racial e a ideologia do branqueamento que ganham força, sobretudo a partir da abolição.

- Cap 3. Trata do tema racial tendo em vista as diferentes abordagens do estudo da questão da mobilidade social, proporcionando um rico quadro da trajetória dos estudos sobre o assunto.

- Cap 4 e 5. Tratam dos dados mais recentes sobre as desigualdades raciais, extraídos da Pnad: um sobre os aspectos demográficos outro sobre os diferencias de renda.

- Cap 6. Analisa as políticas públicas de combate à desigualdade racial no Brasil seus limites e abrangência.

- Cap 7. São apresentadas algumas conclusões com base no que foi discutido nos capítulos anteriores.

Autores:

MÁRIO THEODORO (organizador)
A formação do mercado de trabalho e a questão racial no Brasil.

LUCIANA JACCOUD
O combate ao racismo e à desigualdade racial: o desafio das políticas públicas de promoção da igualdade racial.

RAFAEL OSÓRIO
Desigualdade racial e mobilidade social no Brasil: um balanço das teorias.

SERGEI SOARES
As desigualdades raciais no Brasil – a trajetória a partir dos dados da Pnad.

Para baixar o livro basta acessar www.ipea.gov.br e clicar na reprodução da capa no link livraria (à dreita)

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