vila itororó

•Setembro 7, 2009 • Deixe um comentário

os olhos se perdiam nos ângulos retos do teto, parede , escada - coração se envolvia no redondo da vida, que era

mancha, espalhava no muro, seguindo tijolinho por tijolinho, ora interrompia, ganhava forma, forma da cor do

desenho do grafitti, foi criança que pintou… oxalá pudesse fazer… – a luz do dia ia caindo, a da janela acendendo -

revelando alguém, textura cor e história – muita gente veio ver, gente de fora, gente do movimento, da arte, da

serenidade e da luta – era vila itororó – saiu no jornal, vc foi lá pra ver? – itororó toró pra crer, toró de quê? (…) o

coração palpita, confuso. dá uma alegria de ver, mas de ver o quê? – é luta. mais uma nesse mundo. lá vem o fetiche no

discurso, querem derrubar pra fazer um centro de cultura… um centro de cultura com letra maiúscula ou minúscula?

com letra maiúscula já tem aqui. cultura=história, gente fazendo, no cotidiano. gente enlaçando arte, atraindo

movimento. – querem derrubar. derrubar o quê? o concreto é o que interessa. querem derrubar história. querem

derrubar a dignidade. querem derrubar e passar por cima do tempo que o espaço guardou. do cotidiano que criou ali

uma valor invisível, da palavra tão rara, que a cidade que passa lá fora solapa sem sutileza, solapa, engole e maltrata,

faz quase esquecer, o valor dessa palavra tão rara que quase ninguém fala, mas que falta na veia: p-e-r-t-e-n-c-i-m-e-n-

t-o. – vão derrubar a cultura, a história pra criar… o que mesmo? salve a vila itororó. e salve logo, porque o concreto

dura, mas a vida é sensível e curta.

(da visita em 5 de setembro, na ocasião da reunião da comunidade e apresentação do oásis)

itororóesta foto não fui eu que tirei, ela foi extraída do blogue da vila.

visite e entenda:  www.vilaitororo.wordpress.com

NO MANGUE DO RIO CAPIBERIBE…

•Junho 4, 2009 • Deixe um comentário

…a Ilha de Deus destaca-se pela contribuição de forma transformadora na sua dinâmica cotidiana, mesmo diante da ausência e da irresponsabilidade política, fomentadora das mazelas sociais e afirmadora das relações verticais, que persistem e subjugam a criatividade e a dignidade humana”*.

o pensamento cria a ponte; a ponte, o pensamento.
o pensamento cria a ponte; a ponte, o pensamento.

Foi uma pena não estar com o gravador naquele fim de tarde. De lá do outro lado da sala (porque estávamos numa grande roda) como é de costume, coloquei os óculos para ouvir melhor, faço isso quando tenho que ouvir e tiro quando vou falar… sinto que ouço melhor quando vejo bem e talvez por alguma timidez ou vaidade, prefiro não enxergar tão bem enquanto organizo minhas idéias. Mas lá pelas tantas do discurso do Edson – que era pra ser uma resposta a uma simples pergunta – percebi que nem de óculos precisava, que o que ele me trazia era coisa que a alma entende melhor do que os ouvidos, e nem precisa ver pra crer… Mas eu já estava vendo! Ou melhor, sentindo e foi fácil acreditar. Estávamos ali na salinha do Caranguejo Uça: Cris, Neu, Fátima, Edson Fly, Edileine, Marcos, Garotinho, Esmeraldo, o novo amigo israelense que me acompanhava- Gal um grupo de três voluntários italianos, Martina, Martina (sic) e Lorenzo. Cheguei ali através da Terezinha, colaboradora de peso do Carangueijo Uça; nos conhecemos no curso Comunicação, Gênero e Rádio, oferecido pelo Centro das Mulheres do Cabo (veja post em breve) no início de maio de 2009.


Cheguei ali despretensiosamente sem nem imaginar o que veria. Assim que entrei na sede do Caranguejo Uçá achei que tinha que trazê-lo pro Visões de Mundo, mesmo que, não estivesse planejando nenhuma reportagem pr´aqueles dias.

Fui recebida pelas meninas num fim de tarde de quarta feira, e até que chegasse o resto da turma, proseamos sobre os projetos de geração de renda que vêm acontecendo na comunidade. Fátima e Edileine, me mostraram artesanatos em conchinhas e contaram das atividades de complementação de renda que envolvem cerca de vinte mulheres da comunidade.


Tradicionalmente a principal atividade econômica da Ilha de Deus é a pesca. A ocupação da vila começou na década de 1950, por famílias de pescadores que vieram das mais diversas regiões de Pernambuco, especialmente para exercer a pesca como atividade econômica. Mais recentemente uma empresa de pesca chamada Netuno identificou os manguezais da Ilha de Deus como uma área propícia para a criação de camarões. Da pesca à produção de camarões, a paisagem em torno da ilha foi perdendo o mangue e dando espaço aos viveiros de camarões. O impacto ambiental consequente desta atividade praticada nessa escala é praticamente irreversível, uma vez que as árvores do mangue foram derrubadas e os sedimentos alagados. Economicamente, o estudo de Ferraz e Callou, aponta que os salários giram em torno de 100 a 400reais. A quase totalidade das pessoas envolvidas no cultivo de camarões são homens, o que provocou historicamente certa vulnerabilidade socioeconomica às mulheres da ilha. Os viveiros de camarão geram empregos para muitos moradores e também para gente de fora… Porém, com a chegada dessa nova economia, chega também um novo personagem na vida econômica da comunidade: o atravessador. Agora não é mais o pescador quem define o preço e pra onde vai o seu pescado, o atravessador media a relação com a empresa, acumula custos nessa negociação e diminui o faturamento do produtor…


É assim, Brasil afora, mundo adentro.


Não é à toa que a palavra que mais ouvi ali naquela quarta-feira foi resistência.


Resistência à quê?

“Resistência à inércia social que a história e as políticas públicas vêm condenando a sociedade, vitimizada pela consequência da globalização e modernização desordenada e exploratória.” Me ocorreu assim, na lata, inspirada na lembrança do teor do discurso do Fly. Nas palavras caranguejeras, o povo da Ilha de Deus não é “coitadinho”, é um povo que sabe seu valor e quer se autogestionar – e tem conseguido.

O Caranguejo Uça aparece em algumas reportagens como Associação, mas no Blogue gerido por eles mesmos, se apresenta como “Ação Comunitária”. Em sua quase uma década de existência nunca precisou ou pretendeu se institucionalizar… Resistência e criatividade, de existir pela ação. E pela comunidade. Muitos colaboradores têm vivido para o Caranguejo, mesmo sem ter conseguido viver exclusivamente do Caranguejo, mas ao que parece isso nunca foi algo que os fizesse desistir, ao contrário, o Caranguejo é movido a paixão, ideologia e fé, bem se vê.

Fly começou contando a história do Caranguejo assim “éramos vários viciados, marginalizados, gente com o pé no crime…”… com os olhos mais cheios de amor que de rancor, como um bom Guevarista que é. Isso porque a história transcorre e circula. Era quando a moçada se reunia pra fumar um ali no sótão que a carga da “marginalidade” ganhava sua expressão mais criativa: de se perceberem um grupo e não um bando; de se perceberem diferentes, mas iguais; de se perceberem capazes e não vitimas e, então, no meu poético entender, de perceber que a marginalidade poderia ser uma ilusão social e que haveria meios de se criar a sociedade que se sonha, afinal dela tod@s nós fazemos parte, enfim, que si, si puede. Dali do sótão, passaram a ser educadores da Escola Comunitária que ajudaram a construir ali na Ilha. Que agora está do outro lado do muro, a quem reconhecem o mérito do começo de tudo… mas preferem seguir atuando de sua maneira independente e envolvida.

Esmeraldo, que trabalha como vigilante numa empresa de segurança, me contou “eu, educador… imagina!”, e pelo jeito mandou bem, de fala mansa e atenciosa, presença carismática, discorre pela história e organização espacial e econômica da ilha como um professor de geografia, dos bons, seria capaz de fazer. Na Escola Comunitária ensinava o pessoal a fazer pão, divina profissão!

Na Ação Comunitária Caranguejo uçá, atualmente, além dos cursos de geração de renda – neste momento acontecendo uma formação em “guia turístico com responsabilidade ambiental”, promovida por uma ong italiana – ali já rolou curso de fotografia, música, arte… O evento “terças no mangue”, onde acontecem intercâmbios com as universidades, educação ambiental pra comunidade e orientação pros pescadores a respeito das maneiras mais sustentáveis de realizar a extração do caranguejo e outras práticas. A rádio poste Boca da Ilha funciona desde o início do Caranguejo, com seis caixas de som espalhadas nos postes da vila, ela informa, une e diverte os moradores da Ilha de Deus e os visitantes da vila Imbiribeira, ali do outro lado da Ponte Vitória das Mulheres (no começo, eram as mulheres que conseguiam tudo aqui! – contou Esmeraldo. A diversidade cultural das famílias de migrantes que colonizaram a ilha vem sendo revelada na reconstituição das festas, danças e ritmos, incentivada pela própria comunidade que gere a Ação Comunitária. Do coco ao maracatu e tanto mais que no sertão e em outros mares nosso povo brasileiro vem celebrando… muito se misturou e aportou ali, na foz do rio Capibaribe.

E é daí que a história faz o círculo – ou “arrodeia” como se diz nessas terras do norte – Ilha de Deus é um dos poucos lugares da periferia que vive seu cotidiano em paz. Me disse o povo de Recife que é comum em outras comunidades como essa, a moçada se reunir pra fumar crack nas esquinas com arma na cintura, que ninguém sai à noite e aquela coisa toda que a televisão gosta de mostrar pra gente. As duas vezes que estive na Ilha, sai de lá de noitinha. Fui caminhando até o metrô que fica depois do bairro da Imbiribeira, trocando gentis boas noites com os moradores e moradoras sentados nas cadeiras de praia na calçada ou circulando no mercadinho, na vendinha… Na segunda vez, ainda paramos pra tomar um sorvete e conhecer os amigos da Edileine. Dizem que nem sempre foi assim, que já teve quem chamasse a ilha de Ilha Sem Deus, mas tem sido com muito trabalho que Deus voltou a cuidar dessas margens…

A Ilha, assim como a comunidade de Imbiribeira e como boa parte de Recife e Olinda e provavelmente outros lugares desse Brasil, sofre de um mal que é realmente inconcebível num século vinte e um, depois de tantas ecos 92, rio+10, fóruns sociais mundiais, e tantos e tantos avanços nas discussões de saúde e meio ambiente… Ali o esgoto circula onde circulam as crianças, onde circulamos todos nós, no ir e vir do todo dia. O esgoto passando na rua, na beira da calçada, quando há calçada. Na Ilha de Deus a situação é ainda mais grave, porque a vila está sobre um aterro de mangue. O assoalho do mangue, por sua fragilidade e pelos seus componentes é considerado um sedimento, ou seja um material formado por matéria orgânica, não chegando ainda na condição de solo. É um material alagadiço por natureza. A água vem de baixo pra cima e a que vem de cima pra baixo, penetra, mas muitas vezes não drena. Então o esgoto fica ali, se espalhando pela via, misturando-se à lama que bem ou mal leva-se pra casa todos os dias. Algumas casas, de acordo com os relatos, possuem fossa séptica, mas isso ainda não é um programa do Estado. Esse esgoto que vai pro rio, facilmente contamina a pesca, e nos arredores da ilha ainda se vê o lixo envolvendo as palafitas, as demarcações dos viveiros de camarão, as cordas das embarcações. O lixo é um problema mundial. Já não nos vale dizer que é apenas um problema de educação. É também. Mas não só da educação ambiental que se faz num projeto social. Ele vai além. Ele começa no consumo, passa pela necessidade de campanhas massivas, e se encerra (não sei se se encerra…) na criação de políticas públicas adequadas de destinação dos resíduos. A foz de um rio é um lugar estratégico para entender esse drama.


A Ação Comunitária Caranguejo Uça com tão pouco tempo de existência envolveu a comunidade e certamente contribuiu para o que muitas vezes parece ser o mais difícil de se transformar: o subjetivo, a consciência, não só no sentido de trazer responsabilidade pro dia a dia, mas da consciência no sentido da expressão da alma mesmo, de poder superar a preocupação imediata com a  sobrevivência, das mazelas humanas (que nos afligem a tod@s), e trazer pro cotidiano a arte, o conhecimento, o senso de comunidade, a comunhão com o vizinho, a ampliação da família, o direito de sonhar, de criar, de se informar, de criar e de ser notícia, de produzir boas notícias…


Edson Fly diz lá no blogue: “O Caranguejo é sem dúvidas resultado da ausência de iniciativas políticas, mas que não nos levaram à marginalidade. Essa forma de manifestação podia ser com armas, mas as famílias daqui escolheram a arte, do teatro, da música, da costura, da própria arte de tear as redes de pesca”.


foto aérea da ilha de deus

foto aérea da ilha de deus


*epígrafe retirada do blogue www.caranguejouca-ilhadedeus.blogspot


Algumas leituras:

* O estudo de João Henrique de Melo Ferraz e Angelo Brás Fernandes Callou está no site:

http://www.alaic.net/alaic30/ponencias/cartas/Tecnologia/ponencias/GT18_12%20de%20Mello%20y%20Bras.pdf

*Ananda de Melo Martins, Cláudio J. M. de Castilho, Hernande Pereira da Silva:

http://www.abep.nepo.unicamp.br/encontro2006/docspdf/ABEP2006_296.pdf


O Blogue do Caranguejo Uça:

* http://www.caranguejouca-ilhadedeus.blogspot.com/

AGROECOLOGIZANDO O PENSAMENTO*

•Junho 1, 2009 • 3 Comentários

Esses dias descobri, comecei a aprender sobre generosidade e abundância quando fui trabalhar com os agricultores sem terra no oeste do Paraná. A palavra generosidade começou a fazer parte do meu dicionário quando presenciei a distribuição e trocas de sementes e mudas entre agricultores orgânicos. Isso não era pouco. O ato de dar uma muda ou semente significa garantir que essa espécie continue existindo e se proliferando. Receber algo em troca é assumir essa mesma responsabilidade.

Em oficinas de agroecologia com o amigo Mago Jardineiro, pude entender a verdadeira magia que ele realizava: sementes surgiam e nunca acabavam de surgir, alegrando os oficinandos que sabiam que dali enriqueceriam seus jardins com novas espécies de alimentos, remédios, ornamentos para os insetos e outros animais. Pude entender o que é abundância na Natureza entrando em terrenos baldios e vendo brotar alimento, caminhando na estrada e numa cerca viva já meio abandonada encontrar mudas que embelezariam jardins e produziriam outras cercas vivas em outros lugares; tirá-las dali era um favor que fazíamos ou, no mínimo uma ação de baixíssimo impacto para o lugar, que rebrotaria a tempo de alguém precisar deles e de grande utilidade para a terra que receberia aquela muda ou semente.

Também no trabalho isso se realiza. Lembro-me da minha hesitação em pedir ajuda aos amigos para dar conta do quintal da casa onde eu morava – que era também a casa onde funcionava nosso escritório – e que precisava de poda, de plantio, de manejo. E eu não sabia muito bem por onde começar. Ou até sabia; tive um sonho de que o abacateiro deveria ser podado para entrar luz no quintal. E foi assim, contei o sonho ao amigo Neto, técnico em agroecologia e assentado do MST e, com seu jeito fazedor, não teve dúvida em tirar um domingo de sol pra podar o “meu” abacateiro. A partir daí o quintal que era o lugar de sentar pra conversar no fim da tarde, passou a ser um lugar coletivo, e em pouco tempo, com a chegada de novos amigos, foi recebendo novas técnicas de manejo e passou a produzir muito pras nossas saladas e frutinhas que refrescavam o quente verão de Queda do Iguaçu. Além de fornecer mudas para outros jardins. Esse foi meu primeiro laboratório, onde tive chance de me sentir à vontade para contemplar e despertar os sentidos para as relações que ali se criavam, tarefa essa que gostava de fazer sozinha, talvez porque fosse o momento de me despedir das minhas próprias ignorâncias e me deleitar no encantamento, umas das poucas coisas que continuaram sendo “minhas”, mas absolutamente passíveis de compartilhar, graças a deus.

No campo, a expressão “ajuda mútua” pode soar acadêmico demais. Mas sem precisar de muito argumento, ela brota no cotidiano, por puro costume… lógica ou caráter? A universidade está cheia de teses e capítulos de teses a discutir esse assunto. E nós, nessa pós modernidade com cara de fim de mundo, nos voltamos a essas práticas para aprender como sermos mais humanos. A naturalidade em relação ao trabalho coletivo também salta aos olhos dos forasteiros, mas ele é uma ferramenta óbvia para garantir que as coisas aconteçam – aí está a lógica!

Na realidade do Movimento Sem Terra, mesmo que muitas das pessoas que estão acampadas ali tenham a memória do trabalho coletivo em suas origens, ele não aconteceria na escala que acontece, se não fosse uma rígida cobrança de todo o sistema organizativo do movimento social. Há de se lembrar que o movimento social não é uma entidade política que surge da abstração da cabeça de algumas pessoas. Ele é resultado principalmente de uma realidade que confronta-se com a escassez de recursos, de direitos, de assistência e encontra no coletivo, a abundância, libertadora. Provavelmente mais libertadora do que o próprio acesso à terra, mas essa é uma tese que eu gostaria de mais tempo de vida e vivência para defender.

Assim, na organização cada um exerce uma função na rotina do acampamento que se torna daí uma comunidade. Desde o atendimento na farmácia da terra até a construção dos barracos, da cozinha coletiva que faz o sopão para as crianças à coleta de alimentos na cidade para o mesmo sopão. E de situações pontuais, como um evento para discutir o futuro do assentamento ou de formação de educadores, agentes de saúde ou o que seja, que acaba por mobilizar a todos na divisão de tarefas para que o evento aconteça. E ninguém pergunta o por quê ou por quanto. Pode surgir um “por que não?” Porque, de fato, dar seu tempo ao coletivo é sim um ato de generosidade, mas também é um ato de existência, uma maneira de participar, sentir-se parte ou ser parte. E assim a vida se realiza.

Importante dizer que comunidade não significa harmonia, e menos ainda homogeneidade. Comunidade é algo mais próximo de comunhão, no sentido figurado e não religioso, que significa participar e compartilhar de certas crenças ou ideais. E cada tipo de comunidade comunga alguma coisa mais do que outra. Os acampados do Movimento Sem Terra comungam a luta pela sobrevivência, primeiro. E nela está inserida a luta pela terra e a realização da cidadania que implica no acesso aos seus direitos e à formação enquanto cidadãos também – coisas que nós, seres urbanos andamos esquecendo de reivindicar.

Se alguém ainda acredita que a revolução vai se dar através da luta de classes e da tomada de poder pelo proletariado, peço amorosidade em aceitar minha opinião de que o caminho é outro. Embora o movimento social tenha se desenvolvido sob essa crença, a verdadeira transformação tem se dado no âmbito da subjetividade. Ou seja, na transformação das relações sociais entre aqueles que participam do movimento social. E, ainda, nas transformações espaciais que o movimento tem sido capaz de promover no território brasileiro. Com consentimento do Estado e sem dúvida, sem deixar de ser a classe trabalhadora submetida a esse Estado, mas, contudo, porém, ganhando poder de protagonista dentro do cotidiano, na medida em que se apodera de suas escolhas, na medida em que garante o suprimento das necessidades básicas de sua família através do trabalho.

E, por uma experiência curta, mas que considero profunda, posso defender que o empoderamento do agricultor está muito intimamente ligado às relações que ele estabelece dentro da comunidade. Aqueles/as que se organizam em associações e através delas potencializam o seus papéis de produtores/as, estão mais seguros diante de instabilidades econômicas, porque no coletivo pode-se ter mais acesso às informações e, assim ter mais condições de tomar decisões; pode-se ter mais acesso a créditos para viabilizar o desenvolvimento da comunidade. Têm-se mais consciência do coletivo e aí os valores éticos de convivência passam a ser premissas de sobrevivência. Quando há ausência de ética, se o grupo é mais forte, o agricultor fracassa; se o grupo é fraco, o poder, a coerção tomam conta das relações e, em pouco tempo o grupo também ruirá.

A agroecologia tem um papel fundamental nessa relação. Ao optar por um cultivo livre de agrotóxicos, o agricultor está assinando um termo de emancipação em relação ao círculo vicioso de compra de sementes, compra de insumos e inércia na venda de seu produto.

Embora muitos agricultores agroecológicos consigam se desenvolver somente com a força de trabalho familiar, esse caminho pode ser mais difícil nos dias de hoje, principalmente porque há muitos desafios a se enfrentar para desenvolver-se fora do círculo vicioso da agricultura convencional. Não vou usar o termo nadar contra a corrente, porque tão ultrapassada quando a idéia de que negros no Brasil são uma minoria étnica é a de que a agroecologia é uma prática de resistência, exercida por poucos. Esse novo paradigma pode nos encher de esperança e eu fielmente acredito nele. O que acontece é que primeiro, a agroecologia ainda é tratada como exceção; na mídia ela aparece mais nos programas de ecologia do que de agricultura, mas quando aparece é curioso de notar que é apresentada quase como uma obra autoral, dando destaque sempre à personalidade do agricultor, a origem do conhecimento, enquanto as matérias sobre agricultura convencional são totalizantes e impessoais, falam de produtos, safras, números… E é porque é assim mesmo, o agricultor agroecológico está próximo da terra, da produção, e o ideal é que tenha poder sobre todo o ciclo de seu produto, enquanto que o agricultor convencional, muitas vezes é o grande fazendeiro, administrador, distante dos processos, mais próximo dos resultados, e virá a público para apresentar orgulhosamente seus números alcançados, enquanto que o trabalhador que está aplicando veneno dificilmente terá condições de orgulhar-se da atividade que adoece tanto seu corpo quando o meio em que vive e trabalha.

E aí está o segundo problema para conseguirmos a visibilidade em relação à agroecologia: enquanto ela estiver espalhada no mapa, ela criará lacunas de enfraquecimento tanto da produção quando de seu verdadeiro sentido. Uma produção livre de venenos cercada por produtores convencionais será prejudicada tanto economicamente quanto ambientalmente.

Por isso, a solidariedade passa a ser um dos fatores éticos do agricultor agroecológico; ele deve incentivar seus vizinhos à conversão e unir-se a eles em associações para garantir soberania territorial da prática da agroecologia em alguma escala. Unindo-se é mais fácil também criar barreiras ecológicas para que o veneno não atinja suas produções, o que pode acontecer tanto através dos ventos de maneira física, ou do transporte de sementes e pólens através de pássaros e abelhas ou ainda através da dispersão de um gene transgênico desenvolvido em laboratório para disseminar espécies agricultáveis e também de florestas nativas.

A verdadeira revolução nesses tempos virá através da mudança das relações sociais em toda as escalas, mas principalmente na escala do cotidiano. É aí que os indivíduos terão condições de ter acesso às informações necessárias para direcionar suas práticas de maneira a emancipar-se, não mais do Estado somente_ com a ampliação da consciência humana. Este, o Estado, será mais coagido a atender seus cidadãos e a servi-los, mais do que simplesmente condicionar seu desenvolvimento. E a verdadeira emancipação virá dos limites humanos, mas pra isso, a vida tem que encontrar espaço para realizar-se. Não mais será possível pensar numa vida isolada, e a agroecologia vem-nos ensinar isso. O trabalho exige soma de talentos – plantar, vender, administrar, buscar novas informações, aprender com a natureza, participar politicamente – e dedicação constante. A diversidade de idades, sabedorias e interesses, o ritmo de cada um, tudo isso cria uma realidade própria, voltada para o desenvolvimento comunitário, tendo a agroecologia como um serviço para toda a humanidade.

Através dela vencemos o paradigma do homem (sic) querendo vencer e dominar a natureza. Temos aí, o trabalho cooperativo, entre seres humanos e para com a Natureza. Preservando,cultivando, fornecendo saúde. Emanando a sabedoria de quem Nela vive e A observa. É mais do que sábio perdermos o medo do que parece ser uma visão romântica da vida e das relações. É preciso desaprender a reproduzir a lógica do mercado em nossas argumentações. De que nos interessam tantos números?! Muito mais nos vale, enquanto “raça humana”, que a terra produza alimentos, que as pessoas se alimentem e que tenhamos saúde. Isso é simples. A Agroecologia é a semente. E a semente guarda uma mata inteira, como diz o poeta**.




Legenda das 3 últimas Fotos:

Todas as fotos foram tiradas durante a realização do Projeto Fruta no Pé, Sombra e Água Fresca, no Assentamento Celso Furtado (MST/PR), Quedas do Iguaçu – PR

WWF-Br e Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST. Coord. Helena Ma. Maltez.

1) Distribuição de sementes pelo Ademar Mago Jardineiro, 2006.

2) Distribuição de sementes a
tividade, coord. Agr. Lisandro Rauni Inakake de Souza, 2006.

3) Atividade de Jogos Cooperativos, facilitação educomunicadora Amanda Barral, 2005.




* Mago Jardineiro que tb é poeta chama seu trabalho de Jardinagem do Planeta e do Pensamento… Esse texto transmite o que entendo por Jardinagem do Pensamento…

**  Franklin da Silva , músico e compositor, Recife, PE

Parto de Lótus

•Janeiro 11, 2009 • Deixe um comentário

Era verão, janeiro de 2009, aqueles dias que não tem quase ninguém em São Paulo, mas quem está se encontra.Cheguei em casa em horário já muito próximo da meia noite_ no horário dos home, não no horário de deus; como bem disse um pescador de Cananéia anos atrás. Já havia conversado com três pessoas na net quando a chuva caiu em tempestade. Fiquei onde estava. Busquei no pensamento se havia algo que deveria fazer por causa da chuva… o tonel de captação de água estava cheio, não lembrei de goteiras, janelas fechadas… talvez velas se acabasse a luz… um grito de gato no quintal e… puxa, a Lótus estava gravidíssima e hoje mesmo pensamos que ela poderia estar por dar a luz. Por um segundo tive vontade de chorar por estar sozinha… o que eu vou fazer??? Já era hora depois da meia noite, no horário de uma cidade dormindo ou ocupada com alguma coisa interessante. Vamos lá, abri a porta do quintal e as duas filhotinhas que me acompanhavam amorosamente nos últimos dias entraram felizes. Fui à busca da mãe. Na penumbra molhada subi até o galpão biosconstruído da Morada. Dentre tantas tomadas uma acenderia a luz. Lótus?! Lótus?! Ela estava no pior lugar, uma viga de madeira que unia os dois mezaninos na qual eu já declarara que não tinha a menor habilidade para subir. Em minutos amaldiçoei minha mania de desistir das aulas de dança, kung fu… Mas recorri a outra estratégia. Chamei-a com convicção e expliquei pra ela que ali não era o melhor lugar para parir. Os vizinhos que me desculpassem por tamanha insanidade a essas horas, mas era sincero, ela tinha que entender. Lótus, vamos pra dentro de casa. Vi que ela não ia descer enquanto as filhotinhas e o filhotão – havia um rapaz na parada – continuassem a olhá-la. E desci de volta pra dentro de casa chamando as pequenas, minhas companheiras fiéis que me seguiram saltitantes. Feli e Morgana são as pequenas filhotes da Lótus, ainda em dúvida do nome desta última que de Fadinha passou à Morgana e hoje mesmo ainda me tentou chamá-la de Alegria, mas inevitavelmente iriam me perguntar, porque uma é Felicidade e a outra Alegria e certamente iriam buscar algum motivo filosófico pra isso, mas não seria nada além da possibilidade de chamar uma de Feli e a outra de Alê, sendo que as duas me faziam feliz, alegre, sei lá…. enfim, ela continua sendo a SaFadinha sem nome ou com vários… Desde que vim morar na casa passo horas observando as duas brincarem dinamicamente. Elas se mordem, rolam juntas no chão, se escondem uma da outra, enganam uma à outra… Nos últimos dias que tenho ficado bastante sozinha, elas têm se mostrado duas deliciosas companheiras se enroscando nos meus pés, me chamando pra brincar, me mordendo como mordem uma à outra, pedindo carinho com o corpo inteiro, cada uma do seu jeitinho, a Feli mais meiga, quietinha, aprendendo a miar e a Fadinha safadinha, tagarela,dando cambalhotas, miando, me dando umas patadinhas pra eu chegar mais perto!

Depois que chegamos no quintal, Lótus resolveu descer com sua enorme barriga e pararam todos na porta a olhá-la. Para trazê-los pra dentro coloquei o prato de comida na cozinha. Fechei a porta. Tive que expulsar uma barata que a pequena Feli trazia na boca e dar uma bronca pouco pacífica nela que logo entendeu ou ao menos se encolheu num cantinho da parede e desistiu de brincar. Ficamos nós cinco dentro da casa, eu, Feli, FadinhaMorganinhaAlegria, Cosminho e a mãe de todos, Lótus. Voltei pro meu trabalho enquanto a Lótus espantava a todos de perto do prato de comida. As pequenas dividiam o tempo em brincar e a olhar a mãe com temor, a ponto de se arrepiarem de medo quando ela chegava perto. Quando a gata prenha veio pra sala as duas pequenas se esonderam embaixo das minhas pernas. Incrível como eu poderia ser mais inofensiva do que um ser da mesma espécie que, por sinal era mãe delas! A grávida magestosa atravessou a sala e deitou no sofá sem tirar os olhos do único macho presente. Lembrei da Dani,  uma amiga contando do momento do parto natural que fez em casa, que “virara bicho”, que não queria ninguém por perto, especialmente homens, e que até o companheiro dela teve dificuldade de se aproximar. Achei melhor por o rapaz pra fora. Na chuva mesmo, ele ia se virar. Era um momento de mulheres. Voltei e sentei ao lado da Lótus, que, por sinal estava ao lado do meu local de trabalho. Continuei digitando. O que aconteceu daí pra frente foi muito inusitado e vai parecer loucura mesmo. Eu nunca tinha tido contato direto com essa gata até hoje à tarde quando tentei colocar a mão na barriga dela na presença de um amigo e ela rosnou pra mim deixando claro que não era pra eu me meter na história. Sem que eu fizesse absolutamente nada, nessa noite ela subiu no meu colo e ficou de pé, apoiada nas minhas pernas que estavam cruzadas – em lótus, por sinal. Acariciei a cabeça dela, o pescoço e começamos a nos comunicar. Ela me olhou nos olhos daquele jeito que os gatos sabem fazer, e eu lhe disse com firmeza – realmente não tive controle de onde saíram essas palavras – “estou com você, vai dar tudo certo”. E pus a mão na barriga dela, que consentiu se aconchegando mais no meu colo. Trocamos algumas impressões e ela se deitou ao meu lado de novo. Em menos de um segundo começou a rosnar para as filhotes e percebi que queria mais privacidade. Me senti uma parteira nata. Uma doula, não sei; mas percebi que fui aceita. Desde que minha amiga Tatu resolveu fazer um parto natural no nascimento da Nina, o assunto começou a me envolver animicamente. De lá pra cá praticamente todas minhas amigas engravidaram ou eu me tornei amiga de muitas mulheres lindas, queridas grávidas ou com filhos. Graças ao bom deus, a maioria delas envolvida com parto natural e humanizado. Hoje mesmo havia passado a tarde com minha irmã que está grávida de cinco meses do Thom… uma das maiores alegrias que já tive na vida foi receber a notícia desta gravidez. É incrível, é inexplicável o que isso significa na vida de uma pessoa. Pouco antes da Tatu, vivi uma epidemia de amigos homens vivendo as transformações da paternidade. E pude acompanhar bastante de perto as transformações e aprendizados de uma grande amiga, cuja primeira filhota já está na quarta série do ensino básico. É um tema intenso. É como se viesse à tona toda a razão de existir nesse mundo. Todo o instinto de doação e entrega rompe as carapaças da alma e o amor parece costurar todos os amálgamas mal emendados. Ao mesmo tempo que as sombrancelhas ganham outro peso – principalmente a dos homens que não têm – será? – os hormônios transformados para que o entendimento acompanhe a vida que chega; e que chega chorando pq leva tapinhas na bunda, senão chegaria rindo desses adultos bonachões que ficam criando tanta caraminhola para desenvolver formas de simplesmente estar ali e corresponder aos princípios básicos da vida, amor,comida, cuidado. A aprender a ser humano.

Somos tão bobos achando que não estamos prontos. A vida não está pronta. A vida não está pronta pra nada, esta é a verdade. Aninha, mãe da Clara Lua, dizia que não tem essa de estar pronto pro filho, o filho também não está pronto pra você. E acho que é isso mesmo ou o contrário; a vida se faz quando a gente se joga ou alguém nos joga pela janela… se vira. Conheci uma guria na Argentina que estava lá para desanuviar a cabeça, descansar do trabalho intenso que fazia com pessoas com problemas mentais na Suiça. Na primeira semana no país saiu pra viajar para o norte e conheceu um argentino no ônibus. Se encantaram e começaram a se encontrar. Muito pouco tempo depois ela engravidou. Ela em Buenos Aires e ele em Catamarca, ela analisou racionalmente a situação e decidiu fazer um aborto. Parecia inviável ter uma criança agora, não sabiam em que país iam viver, ele não falava francês, ela não podia ficar na Argentina… Ele tinha um bom trabalho, era consultor autônomo e não teriam como estruturar uma vida na Suiça. Várias questões. Então ela viajou para o norte para encontrá-lo, para que lhe desse suporte para a recuperação emocional depois do aborto. Ela foi com o comprimido na bolsa. Foi a última vez que nos vimos, porque eu voltaria ao Brasil antes de que ela voltasse a Buenos Aires. Senti muito. Éramos seis mulheres na casa, somente duas de nós sabiamos da gravidez, eu e a dona da casa, que precisava saberporque nossa amiga ia deixar a casa. Alguns dias depois, recebemos uma mensagem no celular, eles haviam decidido ter a criança. Foi um alívio para nós. Depois não soube de mais nada. Um dia mandei um email e ela me respondeu rapidamente, dizendo que estava na Suiça, saindo de férias e na volta me contaria tudo. Achei que ela tinha mudado de idéia ao voltar a seu país e não ia ter a criança. Anteontem recebi um email seu. Muito sintética, me contou que seu filho tinha nascido na noite do dia 30 de dezembro, na banheira da sua casa, alguns minutos antes da parteira chegar. Assim que, em suas palavras, seu companheiro foi quem fez o parto. Foi uma história linda. A vida tem sua força. Quando quer, ela acontece. Não depende da nossa limitada consciência ou tendencioso desejo. Ela vem.

Paulinha, a moradora-anfitriã da Morada, fez seu parto com uma garota incrível, que,com 24 anos já fez dezenas de partos por todo o mundo. Cursou uma escola de parteiras, morou com um xamã…Uma mulher linda. Quando a vi na foto tive a impressão de já tê-la visto, mas era impossível. Soube dos detalhes do parto, fizeram um documentário e era como um sonho; perfeito. Um momento de paz, de receptividade e conexão com o que estava por vir. Não era pouco, era uma vida. Muita água,um parto na banheira, água nos olhos meus. Quando Paula olhou nos olhos da Violeta, foi visível a surpresa do encontro. Eram dois seres que estavam se conhecendo. Re-conhecendo? O pai, sensível que é, foi fundamental. E acredito, por ter participado tão ativamente do parto, pôde também transformar-se em pai, de verdade, instintivamente.

Achei que eu ia ser a doula da Lótus. E lá fui eu. Coloquei as filhotinhas pra fora como fiz com Cosminho. Confio nos bichos, sempre acho que eles sabem se virar, principalmente gatos. Adoro observá-los e aprendo um monte. A mãe pareceu me agradecer. Ela tinha os olhos mais tranquilos. Estava no seu posto, ao lado do meu. Acho que entendeu que eu ficaria ali a noite inteira. Com um frio na barriga, mas estava lá. Coloquei um kiirtan. BABA NAM KEVALAM, TUDO É AMOR, TUDO É CONSCIÊNCIA SUPREMA, esse mantra é muito poderoso. Uma vez pude trazer um siri até minha mão cantando esse mantra. Tenho medo de contar isso aqui e parecer uma metida à xamã, mas é tudo verdade. E nos últimos tempos essa conexão com bebês e bichos têm feito meu coração sorrir bastante. Não estou preocupada em ter filhos nem ando pensando em tê-los tão já. É outra coisa. É a sensação de estar desafiando um mistério. O mistério da vida, do que não se comunica de maneira óbvia ou conhecida. De um mundo sutil que desaprendemos a perceber. Foram alguns segundos pra Lótus relaxar e deitar a cabeça no sofá. Pude colocar a mão na barriga dela e ela respondeu ao carinho se aconchegando. Senti os filhotes se mexerem. Meu palpite é que são três porque a barriga está imensa. Mas nunca tinha reparado tanto em uma gata grávida (por que tem que falar prenha?) então não tenho muita idéia. Ficamos ali um tempão. Ela descansando, atenta, vez por outra o rabo manifestava, mas muito raramente. Estava realmente aceitando minha mão esquerda em sua barriga. Com a direita eu continuei postando fotos na internet… mas permaneci atenta. Quando já passava das três, no horário dos gatos e da internauta, resolvi tomar um banho quente como gosto de fazer pra esquentar o corpo à noite. Ela estava bem, tranquila. Apaguei as luzes e deixei-a com o mantra. Quando volto, encontro Lótus e sua imensa barriga (é inevitável fazer essa observação, pq ela está realmente imensa!) saindo do meu quarto, olhou pra mim e deu um miado como quem me procurava, me dando uma bronca. Respondi à altura. Deixei minhas coisas e a chamei de volta pra sala. Ela foi até a porta da casa e miou de novo… entendi que não ia ser hoje minha noite de parteira e deixei a guria cair na noite, torcendo pra que não se enfiasse num canto e resolvesse parir. Mas acho que não. De todo modo, continuo acordada. Um pouco decepcionada, esperando outro miado, ouvindo The Doors.

Enlaçadores de mundo

•Maio 1, 2008 • 2 Comentários

esse era um email que ía pra algumas pessoas queridas, não eram poucas… mas não mandei. Porque achei que ninguém ía se animar de ler até o fim. Tá aqui, então. Eternizado pras noites de curiosidade ou insônia.

Tenho um amigo poeta que diz “esse email é coletivo, mas sei bem quem está no molho”. É assim. Tb sei bem pra quem estou mandando esse email. Perdoem-me por mandar em aberto, mas é pra ficar com cara de reunião lá em casa, daquelas de se jogar no chão da sala e conhecer gente nova. Adoro reunir amigos que nunca se encontraram antes no caminho da vida!

Tem gente do molho que nem sabe, mas sigo na Argentina. Tem gente que nem sabe que vim. Porque a vida é muito louca, os amigos se espalham pelo mundo, a geografia afetiva se amplia e o tempo maquiniza. Aí não dá tempo de contar novidade.

Nessa idade, que já não tem mais boteco de esquina pra cabular aula, o ponto de encontro é virtual, msn, orkut, facebook, qq meleca dessas… e o castelhano tem uma ótima expressão pra isso: é “aburrido”. Delícia é encontrar uma palavra que venha na direção, qq coisinha, coisona, notícia, poema, pedido de ajuda, lembrança de qq teor… tão bem vindos quando a gente tá longe, muito longe, mesmo que seja longe de onde a beleza do mundo se esconde* … mesmo que se esteja em busca de novas referências, as antigas, amorosas – amorosinhas, amorosonas, tanto faz…, enfeitam o dia! Aburrido, muito chato, é abrir email e só ver FW… gente insensível!

Mas, sim, estou na Argentina desde outubro de 2007. Fiz 29 anos aqui. Dizem que meu mapa astral mudou por causa disso. E sinto saudades. De cada um que recebe esse email. Assim que, algum pedacinho de vcs anda vibrando nessas terras.

A caminhada vem larga. E lenta. Cada trinta dias me rende 5 nos objetivos internos. E 25 de novidades discretas as quais venho me acostumando a receber. Entre luas e conflitos, festas e sorrisos, gente nova, poucos Amigos… a vida vai realizando o sonho de conhecer o “outro”, o outro geográfico dessa vez. Por quê? Não sei. A resposta vem a prazo. A infinitude de informações diárias enriquecem a vida. Falar outra língua ajuda pra dizer um monte de coisas, fingir personagem! Maior barato.. quanto tempo não ouço isso! Dia desses soltei um “desencana” e lembrei quem eu era!! Castelhano é o m-a-i-o-r b-a-r-a-t-o. Desafio empírico, uníssono, vou aprendendo é na “calle” mesmo, saindo com sotaque portenho, aquele que paulista não gosta muito de ouvir, principalmente quando vem com camisa do river plate. Do Boca já aprendi a gostar. Porque ali, a paisagem é incrivelmente linda. Turista bobo se limita a ver Caminito. Uma mirada más para allá, e está: o porto cheio de barcos antigos, velhos, enormes, pequenos… qualquer viajante ama um porto. A mim provoca qualquer coisa no peito, assim de fazer coceguinha. E os óio si enche d´água**… As casas antigas da Boca… são casas antigas da Boca!! Argentino quer ser hermano com turista e diz “cuidado ao caminhar na Boca”… Mas não há encantamento que se limite em derramar os olhos na antigüidez das casas, do jeito de viver, na marginalização da gente, que quase vira paisagem não fosse o coração que alerta os olhos da viajante. Tem uma riqueza nas vista (sic) da qual padece a vida. Cotidiano. Esse tal, que a gente não sabe se domina, investiga, se entrega ou resigna (com assento no “g mudo” pra ter rima).

É assim.

Essa semana teve nome de Saudade. Saudades de movimentar o peito de leve, molhar os olhos de água doce… Vontade de alma conhecida. Trocar. Ou só sentir. Estar ali, sob o mesmo céu. Poder tocar a campainha da casa, bater na porta da sala, escritório, discar pra falar, encontrar por acaso… Coisas assim que ajudam a gente a se sentir mais vivo, presente. Saber da vida, contar as novas. Ou nada. Um sorriso à toa.

Por isso voam essas linhas. Até aí.

Buenos Aires é lugar raro nessa Terra. Nunca pensei nem em visitar. Mas pisei e me enrosquei. Cultura a dar com pau. Cada esquina um espaço de teatro, comunidades dançantes, amigos pintores… qualquer adolescente bate um papo bom sobre a “sociedade vigente”. Aí crescem os olhos de vontade de fazer também… E a vida vai.

Aqui, o Poeta do Brasil descobriu o que era preciso pra Viver Um Grande Amor… Tangueiro que só, terra onde drama aflora! Nostalgia avança…

E a mim, que principio em todas as artes, me basta mandar-lhes palavras e palavras… pra expressar o colorido da saudade dançante, de dança espontânea, uma assim, que costumo fazer no terraço da casa portenha.

Assim está a vida: moro com mais cinco mulheres. Suiça, colombiana, argentina, argentina, argentina e eu, brasileirinha. Gente de pedigree: psicopedagoga, comunicadora social, bailarina, estudante de letras… e eu, que aqui, me consideram a“hippie”… eu!… ou quando protesto, corrigem: “alternativa?!” (…). A convivência é pra lá de boa. Ontem estreiamos caipirinha. Com vinho argentino. Coisa rara. Mas a noite permite. A casa enorme, como imensa maioria dos apartamentos de inspiração européia que predominam na cidade colônia, tem terraço e quintal. Uma grande delícia para as noites de lua e brisa do outono que chega. É uma casa meio apartamento, um conceito (!!) que não existe no Brasil (ao menos não no meu brasil classe média), um solar. Sim, porque sabem, Buenos Aires é a Paris da América Latina (!!). Nesse solar viveu um escritor polaco que se chamaWiltold Gombrowicz. Sim, um cara que, na relação Argentina-Polônia deve ser muito importante e agradeço ao Dr. Eugeniwsz Noworyta, senhor Embaxador da Polônia em 1999, que colocou uma placa em sua homenagem na porta da casa, transformando nosso lar em atrativo turístico. Um dia, alguém vai passar aqui e dizer “aqui viveu Amanda Barral”. Um de meus amigos em visita à Argentina, claro! Não esqueçam de me pedir o endereço!

Estamos em San Telmo. Um bairro que mistura Bexiga, Vila Madalena e Santa Tereza. Desse naipe. Uma delícia. E também muito sujo, barulhento… essa mistura de encantamento e horror que a metrópole nos causa; tá tudo aqui na esquina.

E, sim, é verdade, os vizinhos saem com os nenês para passear depois da meia noite, quando as ruas estão tranquilas, apesar dos “boliches” dançantes.

Tango é de se ver nas Milongas. Evento tipo gafieira carioca.

Os bacanas vão nas Peñas – encontro folclórico. Que são obviamente, bacanérrimas.

A vida aqui, agora se sustenta através de massagens. E sigo desenvolvendo essa prática com “mucho gusto”, mesclando as técnicas do Xico, com Ayurveda, reflexologia chinesa, amor e intuição. Jeito bom de se comunicar. Nas outras horas, escrever e fotografar por esporte; nadar por sobrevivência; oficinas de teatro e clown pra se divertir; algumas outras pra experimentar. No fim de semana vou me expandir nas práticas de permacultura dos grupos independentes ainda bem tímidos, mas que já produziram hortas orgânicas em ocupações inusitadas; E, além do delicioso fazer nada de domingo, tem também meditação com a samga.

É assim. A vida vai.

Desconstruindo e construindo todo tempo, todo o tempo. No suspiro, a lembrança dos rostinhos que aqui se representam no entre @rroubas. E rasgando a saudade.

Notícias vêm rarefeitas. Porque a vida segue louca. Quem sabe alguém se anima a dar aquele “olá, como vai?! Eu vou indo e vc…? – eu vou bem”…

Alegraria meu dia.

Não posso deixar de comentar, que me surpreende as notícias de tombos de pessoas conhecidas, queridas e amadas que andam caindo por aí. Nenhuma delas foi engraçada e algumas me chatearam muito. E o pior é que elas chegam na última semana, mas ntes disso, nos últimos dois meses, levei um par de tombos. Não ria. Da escada foram quatro, na rua duas – e em todas me machuquei um bocado. Será isso o retorno de saturno: quebrar estruturas? E por que essa infeliz coincidência? Não sei. Mas saibam.

Do último tombo, conclui que era hora de voltar… assim que, esse talvez seja o último relato in loco.

Voltar sem esperar encontrar nada além de tempo pro encontro, pra saudade, pro carinho, pra alimentar a luz, a cura do planeta, as coisas boas de se estar vivo.

De tudo que ficou pela metade no Brasil… que fazer, sempre hay… Entregar aos céus e acreditar que toda obra se reverbera no abstrato, e vira outra coisa, às vezes em outra forma, às vezes com outros nomes, acreditar que nada foi em vão. Sobretudo, precisava seguir… na preocupação maior, não de ser mais geógrafa, nem mais artista, nem mais revolucionária… mas nesse momento de vida, de ser mais humana…

Enfim, tanta conversa pra ter numa sombra de mangueira…

Oxalá um dia.

Por aqui fica o abraço, do tamanho do que a fronteira divide mas não separa!

deus-matéria-e qualquer coisa

•Abril 26, 2008 • 1 Comentário

A ARTE é saber escutar a arte. Se quiser dominar o pincel, ele vai te bloquear. O importante daí é o processo. Mas o resultado é o que possibilita a troca – quando um vê com o seu de dentro o de dentro do outro expressado.

Proponho um reinventar do diálogo artisticamente! Quando um faz o outro faz em resposta e a coisa vai… Como contato e impovisação, mas em outras artes. Como repente, mas visualmente ou literariamente. Pra uma foto, pra ciência, poesia, crônica, pra tudo… pra gente aprender a se comunicar com o que existe de profundo do outro. E voltar-se a si mesmo. Mais humanizado. Permitir-se aos fluxos, entender que não se tem domínio sobre a vida projetada. PRAKRTI. Não se tem domínio sobre nada. A coisa é. Está. O desejo de eternizar e compartir o momento, a informação, a idéia, de congelar, transformar, produzir o reproduzido, representar, apropriar-se de, vem desde a pintura e, hoje, mais fácil na foto, no vídeo. O desejo de dar à realidade outra textura, outra cor, outra possibilidade à própria existência; teatro, dança, contar histórias…

A arte ensina à vida que ela não tem que se esforçar para viver.

Que ela está. Eu já não sei o que fazer com ela e quase adoeci de tanto pensar. A única certeza é de que não devia chegar a nenhuma conclusão. Mas se decidisse algo, tinha que bancar, porque senão vai gerando uma cor marrom na alma, de coisas que não se realizam. (…) O desejo vai, insólito, vagabundo, criando idéias na alma que o corpo por vezes, não quer resolver.

2008

ARGENTINA: Porque agricultores ecológicos não estão nas ruas do país nesse momento

•Março 26, 2008 • Deixe um comentário

um tango latinoamericano


A maioria dos argentinos não conhece a ecovila Gaia, de 21 pessoas que vive a 3 horas da Capital Federal, no município de Navarro, há onze anos plantando seu próprio alimento e desenvolvendo uma série de experiências riquíssimas em tecnologia apropriada. No primeiro dia de tempestade dessa semana, por acaso, eu estive lá, ou pelo menos perto, tentando chegar na comunidade. E não consegui chegar simplesmente porque não havia energia elétrica em Navarro; assim que, não tive como tirar dinheiro do caixa eletrônico para pagar um taxi para chegar ecoaldea, porque já era noite e não tinha nem pra comprar pilhas pra lanterna… Ainda, o taxi me deixaria a dois quilometros da entrada, porque a estrada de terra estava que era só barro e o automóvel não poderia passar; se fosse um cavalo, chegaria claro. Graças ao meu erro primário de viajante ou ao lapso do vício citadino de esperar encontrar um caixa eletrônico pra resolver os problemas básicos, não pude chegar ao único lugar que, certamente havia luz elétrica e banho quente em toda a região.

Os moradores de Gaia são agricultores. Argentinos. E estão ali, sem sair de casa em plena crise dos +14% que abala os bairros chiques de Recoleta e Palermo em Buenos Aires, e as estradas de toda Argentinas nas últimas duas semanas. Gente de toda parte do mundo vem pra Argentina pra conhecer a Associación Gaia. Eu vim do Brasil, e quando estava lá, comigo estavam: Erin, estudante de arquitetura dos Estados Unidos; Ben, professor de inglês da Inglaterra; Donail, sociólogo da Irlanda; Carlos, profissional de turismo do Equador; Luis, líder comunitário do Peru; Salina, estudante de geografia da Alemanha; Pablo, artista e educador espanhol, que vive no Br; Luis, médico de Santiago del Estero; Cristina, ex-diretora de escola de Buenos Aires; Oliver, australiano, estudante, filho de um dos mais renomados ecologistas do mundo; além de educadores de Buenos Aires e algumas visitas ilustres de argentinos que figuram nas telas de televisão e cinema do país e do mundo, seguramente mais conhecidos do que a própria comunidade Gaia; todos aprendendo, trocando e desenvolvendo juntos novas formas de viver sustentavelmente, usando a inspiração de experiências do mundo inteiro, assim como essa, de Gaia.

Está bom que os donos da soja visitem as cozinhas de suas casas para buscar ou saiam a comprar panelas de inox para fazer barulho nas ruas das cidades e nas estradas, fazendo piquete, estremecendo a opinião pública e a pequena burguesia que foi passar férias no interior do país. Assim o tema vem à tona. Orgulhei-me de ouvir a presidenta falar. Não porque era mulher. Tampouco porque sou partidária desta tica, que, pra mim era uma ilustre desconhecida até alguns meses atrás. Na verdade, até hoje à noite, quando parei para escutá-la de verdade. E gostei. Ela tocou no ponto fundamental. Pra minha opinião, ainda foi bastante suave; espero que só tenha sido para ir aos poucos tocando na questão, porque se colocar tudo agora vai chocar até quem a apóia. Mas há de se dizer, uma nação não pode centralizar sua economia num único produto. A soja vem ganhando espaço nos solos dos países subdesenvolvidos, solos esses que, de subdesenvolvidos não tinham nada, eram solos extremamente aptos, pela dádiva da mãe natureza, a produzir toda sorte de alimentos, a gerar soberania alimentar aos povos das nações que passam fome e produzem soja. Uma coisa não está desassociada da outra. Claro que existem fatores históricos para justificar as crises ambientais e sociais que passa imensa parcela da humanidade atualmente, mas, quando se fala “fome” ou “aquecimento global”, pode se ouvir ecoando ao fundo: “SOJA”.

A soja, sementinha essa que faz brilhar os olhos dos donos dos mais modernos tratores e que recebe monumentos em sua homenagem em municípios no interior da América Latina, como símbolo de desenvolvimento, é tão importante para nossa sobrevivência como o é o BIGMAC. A lógica é absolutamente a mesma. Está por trás de tudo que se diz de bem sobre a soja algumas, ou melhor, muitas corporações e grandes empresários interessadíssimos em associar à imagem de uma vida saudável ou mais feliz a esse grão, de origem asiática, que nunca antes na história fez parte de nenhuma diéta alimentar inteligente. Já é sabido que os orientais passaram a consumir a soja somente depois de descobrir como fermentá-la. Aí veio o tofu, o missô, o shoyu. Antes disso, ela é indigesta para nosso organismo. E aí vem a pergunta inocente: você, que defende os fazendeiros que estão pedindo subsídios ou benefícios para a produção de soja: come soja???

Se ficar sem graça e disser que não, te ajudamos: imensa porcentagem da soja que se produz no submundo…; quer dizer, nos países submetidos…; quer dizer, subdesenvolvidos… ! é destinada à alimentação animal. Você consome carne comum? Então consome soja e, consequentemente está contribuindo duas vezes para o desequilíbrio ecológico e social do planeta.

Outra imensa porcentagem – não tenho a menos idéia de quanto, mas vc pode imaginar – é destinada aos químicos que figuram nas embalagens dos alimentos industrializados que você consome; sim, esses que, vira e mexe aparecem como cancerígenos em algumas notinhas alarmistas de revistas do “viver bem” ou do jornal da tarde.

Você pode comer quanta carne você quiser na sua vida, não vamos entrar nesse mérito aqui, mas, consumindo carne nesse sistema de produção que vigora nos nossos dias atuais você está, nada menos que contribuindo diretamente para o aumento do aquecimento global através de devastação de milhares de florestas para a criação de pasto e, para a produção de soja. Ou seja, contribui duas vezes para a devastação florestal, contaminação dos rios, interferência na circulação das águas, poluição e, consequentemente esse tal de aquecimento global que provoca tempestades fora de época, frio no verão, calor no inverno, que te torna estressado ao ir ao trabalho, te faz carregar mais casacos do que precisa, faz teu corpo enlouquecer tentando se adaptar aos “novos ciclos da natureza”. E, quando senta no sofá no domingo para ver o noticiário te faz suspirar por um minuto pensando que futuro terá seus filhos nesse planeta louco, violento com cara de fim de mundo… Assim como, tanto a produção de gado como a produção de soja estão, historicamente ligadas à concentração de terras, à exploração de trabalhadores rurais, à migração de camponeses rumo ao desemprego e miséria nas cidades.

Tenho a sensação de que tudo isso é tão óbvio que me sinto uma tonta repetindo.

Mas, vamos lá: se você cria o seu próprio gado e galinha ou consome de algúem que os alimenta de maneira natural, faz piquetes florestados para manter a qualidade do solo e a diversidade na alimentação dos seus animais, usa remédios naturais para tratá-los das poucas efermidades que os afetam e ainda, não concentra terras, não explora trabalhadores, não joga os resíduos da sua produção nos rios… você tem alguns pontos a menos no tema “impactos ambientais e sociais” e pode matar e comer seus bichinhos sossegado.

Ainda há que se tocar no tema dos transgênicos. Mais uma vez: escutei gente revolucionária dizer que não tem opinião sobre os transgênicos, porque os testes ainda não comprovaram se fazem bem ou mal para a saúde. Então, diga-me: você acredita que o mundo pode ser melhor do que é hoje e muitas vezes acredita que está fazendo algo pra isso, então o que me diz de consumir ou ao menos permitir que se produza no solo do seu país _ onde poderia-se estar produzindo hortaliças, verduras, legumes, frutas e florestas _ um “alimento” inventado, criado em laboratório, que tampouco se tem a certeza de que não faz mal à saúde, mas já se sabe que pode atingir plantações e florestas a quilômetros de distância, infertilizando sementes criolas e nativas, contribuindo para a extinção de espécies cultivadas a milhares de anos!

Isso tudo enquanto ignoramos as inúmeras denúncias de organismos competentes sobre as fraudes na divulgação dos resultados dos estudos de soja transgênica da Monsanto, onde as cobaias apresentaram metamorfoses cancerígenas por consumir os tais grãos. Muito bem, tem gente que não acredita nessas denúncias, tem gente que tampouco acredita que o ser humano já pisou na lua. Então fique com o tema: se os estudos não são seguros, por que comer soja? (Ainda que em alguns países não se pode confiar na certificação “livre de transgênicos” – então, por que correr o risco?) Eu tenho a impressão de que as pessoas não sabem que comem soja!! Porque se a soja viesse aos seus pratos como vem o feijão, elas íam pensar antes se é algo confiável ou não. Antigamente se espalhava o feijão na mesa e se escolhia os bonitos e os empedrados que não serviam pra comer, mesmo depois de cozido. Imagina se alguns desses fossem azuis, reluzente, tipo chernobyl… você comeria? É assim a soja transgênica: algo criado em laboratório, capaz de causar putrefamento nos órgãos do seu corpo. Não é? Quem me prova o contrário? Quem te prova?? Bom apetite.

E o que tem que ver se a soja é transgênica ou não com os 14%?! Os fazendeiros estão brigando para produzir um alimento de, no mínimo, péssima qualidade pra você. E ainda, que, antes de ser pra você, ele é pra exportação, vai pra outro país, passa por um processamento, volta pro seu país em forma de ração de gado, alimenta o gado que erodiu a terra, contaminou o rio, devastou a floresta, produziu CO2 e, vai morrer num matadouro em péssimas condições de trabalho humano, e, então vai pra sua parrilla de domingo. Nesse percurso, o seu almoço acumulou porcentagens e porcentagens de lucros ou, como se diz em espanhol, ganancias, muita gente saiu ganhando, enquanto outras tantas (e são sempre “outros”) saíram explorados.

Quem está reclamando do aumento da retenção em relação à produção da soja é sobretudo, o grande fazendeiro, dono da terra; terra essa que, em geral foi conseguida por coerção, ou herança do colonizador. E o pequeno produtor que se mantém em sua terra, está dentro do sistema por falta de opção-visão e vende sua produção ao grande fazendeiro ou aos atravessadores e depende deles para ter suas ganancitas. Essa relação é tão velha quanto à roca da minha avó! O grande fazendeiro que faz “parcerias” com o pequeno, o empresário ou o atravessador é quem fixa o preço da compra do produto do pequeno produtor; claro, também tem influência do mercado externo, pois estamos falando de grandes produções para exportação, mas nisso, o grande está unido, o pequeno não; se ele quer, vende, se não quer, fica com uma sobreprodução que vai apodrecer sem escoar. E, ele precisa vender porque precisa comprar sementes e veneno para a próxima safra, senão tem que começar a se desfazer de seus bens, começando pela própria terra, meio ancestral de sobrevivência. Isso é o que podemos chamar de vulnerabilidade social.

Tudo isso até agora te parece óbvio e natural? Então vamos tentar olhá-los como se não fosse. Se a exploração é inerente à história das relações de trabalho no campo – e em qualquer lugar – sem entrar nesse mérito que, por mim deixo claro que é “inerente à história e não ao ser humano”, o que quero apontar é que, a maneira de produzir não o é, não é autóctona, tradicional, originária, o povo do campo não viveu sempre assim, até que chegasse o sistema inerente à história: a exploração e, agora, exploração capitalista, moderna e já bem antiga. Cada vez que o noticiário na Argentina diz que “o campo está protestando contra os 14% a mais de retenção à exportação da soja” me arrepia, porque “o campo” é outra coisa, o campo é múltiplo, são os camponeses*, os indígenas, os agricultores familiares, os povos tradicionais; quem está reivindicando é, senão a cidade, uma extensão do urbano, são os donos do poder, das tomadas de decisão, os que influenciam na economia do país e do continente. Disseram-me que aqui na Argentina não é bem assim. Os grandes fazendeiros já perderam o poder. A corrente peronista, que não é socialista nem “de direita” e nem neoliberal, distribui melhor o poder. Salve. Mas economicamente e historicamente, os caras têm força. Haja vista a indignação de um monte de gente que não entende nada e menos ainda “como a presidenta tem coragem de aumentar tanto assim os impostos… isso é uma vergonha!”

Bom, vamos ao que pode ser e muitas vezes já é. A presidenta, bonita, feminina, e bem competente defendeu que a soja tem que dar espaço à produção de milho e de carne. Em outras palavras, diversificar a produção. Até aí, ela está corretíssima. Qualquer nação, assim como qualquer pequeno negócio, que se limita à produzir um único produto está fadado à falência, porque torna-se totalmente vunerável às condições de escoamento e aceitação desse produto nacional ou internacionalmente. E, quanto maior a escala, pior, porque quanto mais longe do consumidor final está o produtor, menos condições ele tem de avaliar os rumos da sua produção. Qualquer “Básico 1” de marketing sabe disso: você tem que conhecer o seu cliente. (Há uma outra premissa que é você tem que criar o seu cliente, ou seja, doutrinar as pessoas para que consumam o seu produto – e é isso que se tem feito com a soja, e com o BigMac!!) Cristina acerta quando levanta esse argumento. Mas ainda está sendo bem pouco progressista, pra não dizer eficaz, em não ir além do milho e da carne. O milho e a carne ainda estão presos ao mesmo sistema de produção da soja, então, de certa forma, a maior parte dos argumentos contrários à soja servem também ao milho e à carne. O produtor continua preso ao ciclo: comprar sementes, comprar veneno, vender ao preço que lhe fixam para comprar mais sementes, mais veneno para poder comprar sua comida, seu eletrodoméstico, mandar seu filho pra escola. Isso, o pequeno agricultor ou o agricultor familiar que depende de vender sua produção aos grandes. O grande, por sua vez, vai contratar trabalhadores cada vez em situações pioeres de trabalho, porque cresce o desemprego e o trabalho é desvalorizado. Ainda, para produzir o grão ou a carne, cada vez mais vai precisar de mais terra, porque a terra cansa, se exaure… Esse é o sistema de monopólio da terra e de monocultivo.

Parece metáfora? Sim, o ser humano já pisou na lua! A terra tem nutrientes e ela precisa se retroalimentar daquilo que produz.

Por isso chegamos num outro ponto crucial: BIODIVERSIDADE. Diversificar a produção não é só porque é bonitinho, porque os abraçadores de árvores dizem que temos que diminuir a emissão de CO2 no ar, temos que fixar carbono, temos que melhorar a paisagem e reconstituir as nossas florestas. Já não bastasse isso tudo, que não é mais tema de revistas de gente bonita que pratica esporte, mas sim tema de interesse de qualquer ser vivo que pretende continuar existindo enquanto espécie sobre nesse planetinha. A questão da biodiversidade é também, e principalmente, uma questão de sustentabilidade, isto é, de condições de manter permanência da produção, de proporcionar que o campo continua produzindo alimentos e de que o agricultor, seja ele grande ou pequeno, continue sendo agricultor. De que, sobretudo, tenha alimento para a nação. E como é de gosto de socialistas e capitalistas: que tenha trabalho para todos. A biodiversidade é uma vantagem econômica, porque, se um produto está em crise, o outro pode gerar renda. Ecologicamente acontece o mesmo: se uma planta pode estar enfraquecida, a outra, está crescendo e acumulando nutrientes e igualmente, elas vão se ajudando mutuamente.

Nada disso é segredo, e por que não se fala nos noticiários?!?!? Escrevo esse texto quase aos gritos. E por isso talvez me escutem como uma idealista com mais argumentos textuais do que numéricos, e isso é até proposital, porque os números se manipulam e o texto que aqui se apresenta se parar para pensar um minuto verá, é lógica pura, totalmente racional. A emoção vem da indignação de saber que ainda se ignora tudo isso.

A presidenta falou, mas não foi capaz de aprofundar: tem que se mudar o sistema de produção!! Diversificar. Diversificar em espécies. Sair do ciclo coercivo da compra de sementes-compra de veneno e acúmulo de terra e de meios de produção. A matéria prima pode ser processada ali, pelo produtor ou por uma cooperativa. Os produtores têm que ter domínio sobre suas próprias sementes e meios de produção. Basta.

Diversificar em produtos, para atender os mais diversos mercados. E mudar o sistema, significa o sistema inteiro: a produção tem que ser destinada ao mercado interno primeiro! Não que as fronteiras devem ser fechadas. A globalização é linda para troca de informações, de idéias, de tecnologias, de produtos também. Mas a base da economia tem que girar entre os vizinhos mais próximos, isso diminui consideravelmente a vulnerabilidade.

A revolução é: tiramos a soja, recuperamos o solo, plantamos alimentos para nós mesmos e para nossos vizinhos de maneira ecológica, produzimos nossas próprias sementes, tiramos leite das nossas próprias vacas, processamos nosso próprio doce, destinamos as hortaliças pro mercado mais próximo, economizamos em transporte, diminuimos os custos, abaixamos os preços, garantimos a qualidade, tiramos o veneno, boicotamos as grandes corporações. É tão simples. Como você não pensou nisso antes? A ecoaldeia Gaia pensou. Por isso não saiu em piquete nessa semana. Igual a ela, existem centenas em todo mundo, e existem milhares de produtores fortalecendo essa corrente: do agroecológico, do sustentável. SUSTENTÁVEL. Essa palavra é mais complexa do que figura por aí de maneira tão banal. Se estiver associada a uma grande empresa, a qualquer monopólio, a qualquer empresa que vise lucros exorbitantes, esqueça, nada que ver! Escolha melhor o que consome, porque o sistema todo é sustentado pelo seu movimento de escolha! E quando ouvir alguém bater lata, preste muita atenção antes de entrar no ritmo ou rechaçar. A coisa toda é mais complexa. Embora seja óbvia.

* Sobre o conceito de campo é curioso dizer ainda que, aqui, pelo pouco tempo de contato pude perceber que campesino não é um termo usado para o pequeno agricultor. Ao menos nos periódicos diz-se “chacareros” e campesinos como sinonimos. Campesino pode ser o grande fazendeiro, por isso ainda, é muito difícil para o leigo entender de que “campo” os jornais estão falando, estão todos apresentados como uma mesma realidade, sob um mesmo conceito, o que não está certo, já que, sequer a paisagem produzida é a mesma. Vale lembrar na obra de José de Souza Martins a sugestão de que camponês seja o melhor termo a se referir ao trabalhador do campo; um termo político que nos remete à luta de classes e à construção da identidade desse ser social.

**Amanda B. Almeida – Educadora, bacharel em Geografia, aprendiz de permacultura; vive na Argentina e só pensa em portunhol há alguns meses.

Este artigo está também em:

www.mirandomundo.wordpress.com

http://www.permacultura.art.br/xps/modules/news/article.php?storyid=83

http://tkgeo.blogspot.com/2008_04_01_archive.html#1260807581300570515#links

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/04/416043.shtml

Humahuaca e Salinas

•Março 17, 2008 • Deixe um comentário

… de repente abrir os olhos e ser invadida por uma paisagem árida. Cheia de cores. Siete colores. Organizadas em desenhos aquarelados que há milhares de anos se secaram. Estamos a 4mil metros de altitude, quase do outro lado do continente. Uma batucada pela rua, os niños, de pele marrom, olhinhos puxados, imitam o passo da professora cansada.

Todo dia de janeiro é dia de cortejo em Tilcara. Os tambores, a flauta, tudo de um jeito que só tem aqui.. ou por aqui, sul da Bolivia, norte do Chile, noroeste da Argentina… e, algum simulacro em Buenos Aires, onde tem de tudo. O cortejo termina na igreja, os niños continuam dançando os passinhos coreografados, agora mais felizes, porque os turistas se aglutinam a fotografar.

Na estrada o caminho termina na salina, depois de subir e descer 2mil metros, a cabeça já foi prum lado, a barriga pra outro, quem sabe isso porque ali, antes, muito antes, foi mar. Antes dos Andes, antes da Sierra de Siete Colores… No meio de tanta montanha colorida se abre um vale infinito, uma praia no horizonte, branca que nem neve, salgada porque sal; enchendo um vazio dos olhos.

Na igreja, o peito se permite retumbar os passos infantis, quiçá cristãos, quiçá pagãos?… sem uniforme ou roupa combinada, sem figurino, mas com alegria de dia de estréia, saindo bem na foto…

E então os olhos que antes secos, salgados, se encharcam na doçura do sei lá o quê que invade. E quando a gente vê coisa bonita, lembra de gente outra e tampouco entende ou quer entender porque se está aqui, nesse tempo fora do lugar, nesse tempo fora do ritmo, nesse ritmo quase sem lugar. Qualquer lugar seria, qualquer batucada traria essa noção de longitude, de linhas cruzadas no mapa… de vazio, de ser nada no meio do som, de ser um com tudo que é seco, porque rima com saudade.

E de repente lembrar de pessoas amadas, e quase ser o branco da salina.